Reino de Axum: os obeliscos que testemunham a Etiópia antiga
Admin Dev · 18 de setembro de 2026

No norte da atual Etiópia, entre aproximadamente o ano 100 e o ano 940 da era cristã, floresceu o Reino de Axum, uma das grandes potências comerciais do mundo antigo - historiadores da época chegaram a citá-lo ao lado de Roma, Pérsia e China entre os quatro grandes impérios do período, uma afirmação que hoje soa surpreendente para quem não conhece essa parte menos difundida da história africana.
Uma posição estratégica no comércio antigo
Axum devia sua riqueza à posição geográfica privilegiada, conectando o interior da África, através do Mar Vermelho, às rotas comerciais marítimas que ligavam o Império Romano à Índia - o reino exportava marfim, ouro e outros bens valiosos, e chegou a cunhar sua própria moeda, um sinal claro de sofisticação econômica raro entre potências da época.
Os obeliscos gigantes
O símbolo mais reconhecível de Axum são seus obeliscos monumentais - estelas de granito esculpidas para marcar túmulos reais, algumas com mais de 20 metros de altura, decoradas com relevos que imitam a estrutura de prédios de vários andares, com janelas e portas falsas esculpidas na pedra. O maior deles já erguido, com mais de 30 metros, está caído e quebrado há séculos, provavelmente devido ao próprio peso durante ou logo após sua instalação.
Uma das primeiras nações cristãs do mundo
Axum foi um dos primeiros reinos do mundo a adotar oficialmente o cristianismo como religião de estado, no século 4 - antes mesmo do Império Romano fazer o mesmo de forma oficial e duradoura. Esse legado religioso permanece extremamente vivo na Etiópia moderna, cuja Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo mantém, até hoje, tradições litúrgicas antigas raras de se encontrar em qualquer outro lugar do mundo cristão.

Foto: Miko Stavrev / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
A lenda da Arca da Aliança
Segundo uma tradição etíope antiga e profundamente enraizada, a verdadeira Arca da Aliança bíblica - trazida, segundo a lenda, por Menelik I, filho do Rei Salomão com a Rainha de Sabá - estaria guardada até hoje numa capela específica em Axum, a Capela da Tábua da Aliança, vigiada por um único monge guardião que, segundo a tradição, nunca deixa o local e é o único ser humano autorizado a vê-la. Embora a alegação não possa ser verificada por pesquisadores externos (o acesso à capela é estritamente proibido a qualquer pessoa além do guardião), ela permanece central à identidade religiosa etíope e é uma das razões pelas quais Axum é considerada a cidade mais sagrada do cristianismo ortodoxo etíope.
Um obelisco que voltou para casa
Um dos episódios mais simbólicos ligados a Axum na era moderna aconteceu em 2005: um dos maiores obeliscos do sítio, levado para a Itália como espólio de guerra durante a ocupação fascista da Etiópia nos anos 1930, foi finalmente devolvido ao país após décadas de negociações diplomáticas - um dos casos de repatriação de patrimônio cultural africano mais celebrados das últimas décadas, e frequentemente citado em debates internacionais sobre a devolução de artefatos retirados da África durante o colonialismo.
Como visitar
Axum é uma cidade relativamente remota no norte da Etiópia, geralmente incluída em roteiros mais longos pelo chamado "Norte Histórico" do país, ao lado de Gondar e Lalibela - o Museu Arqueológico de Axum, próximo ao campo de obeliscos, ajuda a contextualizar as descobertas feitas no local, incluindo achados que, segundo a tradição etíope, estariam ligados à lendária Rainha de Sabá.
