Bunna: a cerimônia do café que é ritual social na Etiópia
Admin Dev · 18 de setembro de 2026

A Etiópia é reconhecida internacionalmente como o berço histórico do café - a planta Coffea arabica é nativa das florestas montanhosas do sudoeste do país, e a lenda mais popular sobre sua descoberta atribui o achado a um pastor de cabras etíope chamado Kaldi, que teria notado seus animais mais agitados depois de comer os frutos vermelhos de um arbusto silvestre. Seja qual for a origem exata, é na Etiópia que o café segue sendo, até hoje, muito mais do que uma bebida: é o centro de um dos rituais sociais mais importantes do país, a cerimônia do bunna.
Um ritual, não um simples preparo
Diferente de simplesmente coar ou passar café, a cerimônia do bunna é um processo completo, conduzido tradicionalmente por uma mulher, que começa com a torra dos grãos verdes numa frigideira sobre brasas, bem na frente dos convidados - a fumaça e o aroma da torra fazem parte da experiência, e é comum que o anfitrião passe a frigideira pela sala para que todos sintam o cheiro antes de moer os grãos manualmente e prepará-los na jebena, o bule de barro tradicional de gargalo estreito usado para ferver o café.

Foto: Jean Rebiffé / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
As três rodadas: abol, tona e baraka
Uma cerimônia completa de bunna envolve tradicionalmente três rodadas sucessivas de café, cada uma com seu próprio nome e significado: abol, a primeira e mais forte; tona, a segunda; e baraka, a terceira e mais fraca, cujo nome remete literalmente a "bênção" - recusar as três rodadas, especialmente numa visita formal, pode ser visto como pouco cortês, já que a cerimônia inteira, do início da torra ao fim da terceira xícara, é pensada como uma experiência social prolongada, não um cafezinho rápido.
Incenso, pipoca e conversa
É comum que a cerimônia seja acompanhada da queima de incenso (frequentemente resina de olíbano) e do consumo de pipoca ou pequenos petiscos, enquanto os presentes conversam - o ritual inteiro, do preparo ao fim da terceira rodada, pode facilmente durar mais de uma hora, e é tão associado à hospitalidade etíope que ser convidado para uma cerimônia de bunna numa casa é considerado um sinal claro de respeito e amizade.
Um pilar da economia etíope
Além do peso cultural, o café é um dos pilares mais importantes da economia etíope: o país é um dos maiores produtores e exportadores de café do continente africano, e a bebida sustenta o sustento de milhões de pequenos agricultores em regiões produtoras como Sidamo, Yirgacheffe e Harar - nomes hoje reconhecidos internacionalmente entre apreciadores de café de especialidade, cada um associado a perfis de sabor específicos derivados do clima e da altitude únicos de cada região etíope.
Onde vivenciar
A cerimônia do bunna é praticada em casas por toda a Etiópia, mas também é oferecida, de forma mais formal, em muitos restaurantes tradicionais de Adis Abeba e de outras cidades do roteiro turístico do país, geralmente como encerramento de uma refeição etíope completa - uma forma acessível para visitantes vivenciarem, mesmo que por uma tarde, um dos costumes mais centrais da cultura etíope.
