Para a imigração de boa parte da África, o passaporte brasileiro vem acompanhado de uma informação a mais: o viajante está chegando de um país com risco de transmissão de febre amarela. Por isso, destinos que não pedem nada a um europeu cobram o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia (CIVP) de quem embarca em Guarulhos ou no Galeão. A malária é outra questão, que depende menos do país e mais da região dentro dele.

Este guia reúne as duas coisas por destino, com base nas páginas de cada país do CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos, consultadas em outubro de 2026. Ele não substitui a consulta médica: remédio antimalárico precisa de receita, e a escolha depende de idade, gestação, outras doenças e do roteiro.

Como emitir o CIVP (de graça, pela internet)

O certificado é emitido pela Anvisa e não custa nada. Segundo a página do serviço no gov.br, o caminho é este:

  1. Tome a vacina de febre amarela numa unidade de saúde e guarde o comprovante com nome, data de nascimento, data, lote, assinatura e carimbo.
  2. Confira no Meu SUS Digital se o certificado já aparece disponível.
  3. Se não aparecer, faça o pedido online com login gov.br (conta bronze, prata ou ouro), anexando a foto do comprovante.
  4. O certificado sai em "Minhas solicitações", em geral de 1 a 5 dias úteis.

Dois detalhes evitam problema no aeroporto. O CIVP só passa a valer 10 dias depois da vacinação, então quem se vacina na véspera pode ser barrado. E ele vale pela vida toda: desde 2016 o Regulamento Sanitário Internacional não exige dose de reforço para fins de certificado, como lembra o CDC. Crianças podem ter o documento a partir de 9 meses.

Leve o CIVP impresso junto com o passaporte, na bagagem de mão. A companhia aérea também pode pedir o documento no check-in, antes mesmo de você chegar à imigração.

Tabela: febre amarela e malária em 17 destinos

A coluna do CIVP considera quem sai do Brasil, país que a OMS classifica como área de risco de febre amarela. "Escala" quer dizer que a regra vale também para quem passou mais de 12 horas em conexão num país de risco.

PaísCIVP para quem vem do BrasilMalária (onde, segundo o CDC)
África do SulExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaKruger e partes de KwaZulu-Natal, Limpopo e Mpumalanga; Cidade do Cabo e Joanesburgo sem risco
MarrocosNão exigidoSem recomendação de remédio
EgitoExigido a partir de 9 meses, inclusive escalaSem recomendação de remédio
QuêniaExigido a partir de 1 anoTodo o país abaixo de 2.500 m, inclusive parques; raro no centro de Nairóbi
TanzâniaExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaTodo o país abaixo de 1.800 m
NamíbiaExigido a partir de 9 meses, inclusive escalaNorte (Kavango, Kunene, Zambezi e outras regiões); Windhoek sem transmissão
BotsuanaExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaChobe, Okavango, Ngamiland e outros distritos do norte; Gaborone sem transmissão
ZâmbiaExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaTodo o país
ZimbábueExigido a partir de 9 meses, inclusive escalaTodo o país
RuandaExigido a partir de 1 anoTodo o país
UgandaExigido de todos os viajantes a partir de 1 anoTodo o país
MoçambiqueExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaTodo o país
Cabo VerdeExigido a partir de 1 anoSem área de risco listada pelo CDC
MauríciasNão exigido, segundo o CDCSem área de risco listada pelo CDC
SeychellesExigido a partir de 1 ano, inclusive escalaSem área de risco listada pelo CDC
MadagascarExigido a partir de 9 meses, inclusive escalaTodo o país, exceto a capital Antananarivo
EtiópiaExigido a partir de 9 meses, inclusive escalaÁreas abaixo de 2.500 m

Duas observações práticas. Quem vai a mais de um país deve olhar a regra de cada um, porque passar alguns dias na Zâmbia ou no Quênia pode gerar exigência no destino seguinte. E a regra de Uganda, segundo o CDC, vale mesmo para quem chega de um país sem risco, o que torna o CIVP obrigatório em qualquer roteiro de trekking de gorilas que passe por lá. Em outubro de 2026, o governo britânico retirou de sua página sobre Uganda a menção a essa exigência, então confirme a regra com a companhia aérea antes do embarque.

Vacinar além da exigência

O CIVP é uma regra de entrada. A recomendação de vacina para proteger o próprio viajante é outra coisa. No Quênia, por exemplo, o CDC recomenda a vacina de febre amarela para quase todo o país, mas não para quem fica só em Nairóbi, Mombaça e na maior parte do litoral.

Na mesma página do Quênia, o CDC recomenda hepatite A para viajantes não vacinados a partir de 1 ano, hepatite B para não vacinados com menos de 60 anos e febre tifoide para a maioria dos viajantes. Pede ainda que todos estejam com a vacina de sarampo (tríplice viral) em dia. Raiva pré-exposição e cólera ficam a critério do médico, conforme o tipo de viagem.

Malária: onde o remédio preventivo entra

Não há vacina contra a malária indicada para turistas. A prevenção combina proteção contra picadas e, nas áreas de risco maior, um antimalárico tomado antes, durante e depois da viagem. Para os destinos de safári da tabela, o CDC lista quatro opções: atovaquona-proguanil, doxiciclina, mefloquina e tafenoquina. Algumas começam dias antes do embarque e continuam semanas depois da volta.

A escolha entre elas é médica. A tafenoquina e a primaquina exigem teste de G6PD antes, porque podem causar hemólise grave em quem tem a deficiência. Cada remédio tem contraindicações diferentes para gestantes, crianças e quem usa outros medicamentos.

Onde o risco pesa mais num roteiro típico

  • Safári no Kruger: o CDC recomenda remédio preventivo para o parque e os distritos de maior risco. Quem fica na Cidade do Cabo e na Garden Route não está em área de malária.
  • Quênia e Tanzânia: os parques de savana, como o Masai Mara e o Serengeti, ficam abaixo da altitude-limite e entram na área de risco. O topo do Kilimanjaro não tem malária, mas a base e os hotéis de Arusha e Moshi têm.
  • Botsuana e Namíbia: o Delta do Okavango, Chobe e a Faixa de Caprivi (região de Zambezi) estão em área de transmissão. Windhoek não tem transmissão, e Sossusvlei fica fora das regiões listadas pelo CDC.
  • Zanzibar: faz parte da Tanzânia, onde todo o território abaixo de 1.800 m é listado como área de transmissão.

Proteção contra picadas

O Anopheles, mosquito da malária, pica principalmente do entardecer ao amanhecer. A proteção inclui repelente reaplicado, manga longa e calça à noite, e dormir sob mosquiteiro quando o quarto não tem tela ou ar-condicionado. Roupas tratadas com permetrina somam uma camada de proteção.

Febre durante a viagem, ou em até um ano depois da volta, pede atendimento imediato, sempre com a informação de que você esteve numa área de malária. O CDC insiste nesse ponto porque a malária por P. falciparum, a mais comum na África, pode se agravar em poucos dias.

Outros cuidados de saúde

Diarreia do viajante. Nos destinos de safári, ela é mais frequente que as doenças tropicais. Prefira água engarrafada ou filtrada, inclusive para escovar os dentes onde a água da torneira não é tratada. Leve sais de reidratação oral na bagagem de mão.

Altitude. No Monte Quênia, no Kilimanjaro e nas terras altas da Etiópia, o mal de altitude é um risco maior que a malária. Dor de cabeça, náusea e falta de ar podem começar a partir de 2.500 m. A prevenção principal é subir aos poucos, com dias de aclimatação.

Seguro com evacuação. Em safáris em áreas remotas, o hospital mais bem equipado pode estar a horas de voo. Contrate um seguro-viagem com evacuação médica aérea e confira se a apólice cobre os países e atividades do roteiro, como trekking acima de certa altitude.

Perguntas frequentes

Vou só à Cidade do Cabo, sem safári. Preciso do CIVP?

Sim. A exigência sul-africana não depende da região visitada, e sim de onde o viajante vem: quem chega do Brasil, país com risco de febre amarela, precisa apresentar o certificado a partir de 1 ano de idade. O mesmo raciocínio vale para Seychelles e Cabo Verde, destinos sem febre amarela que ainda assim pedem o CIVP de quem sai do Brasil.

Tomei a vacina há mais de dez anos. Preciso de reforço?

Para fins de certificado internacional, não. Desde 2016, o CIVP de febre amarela vale pela vida toda, segundo o Regulamento Sanitário Internacional e a própria página do gov.br. Se o comprovante antigo não aparecer no Meu SUS Digital, faça o pedido online anexando o cartão de vacinação.

Quem não pode tomar a vacina consegue entrar?

Pessoas com contraindicação médica (algumas condições de imunossupressão, por exemplo) podem receber do médico um atestado de contraindicação à vacina. Cada país decide se aceita o documento. Converse com o médico e com a embaixada do destino antes de comprar as passagens.

Fontes