Em 27 de maio de 2002, um raio atingiu um obelisco de 24 metros numa praça de Roma. A peça não era romana: tinha sido levada da cidade etíope de Axum em 1937, cortada em três partes, como espólio da ocupação italiana. O estrago reacendeu uma briga diplomática de décadas e ajudou a apressar a devolução, concluída em 2005. É a história mais conhecida de Axum, mas é só o capítulo final de um reino que, no século 3, era citado entre as quatro grandes potências do mundo.

Uma potência do Mar Vermelho

O Reino de Axum (ou Aksum) existiu do século 1 até cerca do ano 960, no território que hoje corresponde ao norte da Etiópia e à Eritreia. A capital ficava no planalto, e o grande porto era Adulis, na costa do Mar Vermelho. Por ali passavam marfim, ouro e outros produtos do interior africano, trocados por mercadorias que chegavam do Egito romano, da Arábia e da Índia.

O profeta persa Mani, no fim do século 3, listou Axum como uma das quatro grandes potências de seu tempo, ao lado de Roma, da Pérsia e da China. No auge, depois de anexar o reino de Himiar, no Iêmen, o território axumita chegou a cerca de 2,5 milhões de km².

Dois sinais mostram o peso do reino:

  • Moedas próprias. Axum foi uma das primeiras entidades políticas africanas a cunhar moeda, em ouro, prata e bronze, com inscrições em ge'ez e em grego. A cunhagem durou de Endubis, no fim do século 3, até o rei Armah, no século 7.
  • Escrita própria. O alfabeto ge'ez, desenvolvido em Axum, ganhou depois sinais de vogais e virou o sistema silábico que ainda hoje é usado para escrever o amárico e o tigrínia.

Um dos primeiros Estados cristãos

Por volta do ano 325, o rei Ezana adotou o cristianismo, e as moedas do reino trocaram os símbolos antigos do crescente e do disco pela cruz. Isso faz de Axum um dos primeiros Estados a adotar oficialmente a fé cristã, poucas décadas depois da Armênia.

A herança está viva. A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo tem raízes nessa conversão, e o ge'ez segue como língua litúrgica nas missas e nas festas como o Timkat. No século 6, o rei Kaleb levou o poder axumita para o outro lado do Mar Vermelho, invadindo Himiar para pôr fim à perseguição de cristãos ali. O controle sobre o sul da Arábia, porém, não durou: em 575, uma força persa encerrou de vez o domínio axumita no Iêmen.

As estelas: o que se vê hoje

As estelas eram marcadores de túmulos da elite e foram esculpidas em blocos únicos de granito, imitando prédios de vários andares, com janelas e portas falsas em relevo. Estão concentradas no Campo das Estelas do Norte, o principal sítio arqueológico da cidade.

EstelaAlturaSituação
Grande Estelacerca de 33 mcaída e quebrada no chão, provavelmente desde pouco depois de erguida
Obelisco de Axum (Estela de Roma)24 m, 160 toneladasde pé desde 2008, depois da volta de Roma
Estela do Rei Ezanacerca de 21 mde pé; considerada a última erguida, no século 4

A Grande Estela seria a maior peça de pedra que se tentou erguer na Antiguidade. As explicações para sua queda incluem falha estrutural logo depois da instalação, terremotos e as incursões do imã Ahmad Ibrahim no século 16.

Sob o campo há túmulos subterrâneos de pedra ligados a essas estelas. O conjunto de ruínas de Axum, com estelas, túmulos e restos de palácios, entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1980.

Roma, 1937 – Axum, 2008

A trajetória do Obelisco de Axum é um caso raro de devolução de patrimônio entre Europa e África:

  • 1937: depois da ocupação da Etiópia pela Itália fascista, a estela, então caída em pedaços, foi cortada em três partes, levada de caminhão até o porto de Massawa e embarcada para Nápoles, onde chegou em 27 de março. Em 28 de outubro de 1937 foi inaugurada na Piazza di Porta Capena, em Roma.
  • 1947: num acordo assinado no âmbito da ONU, a Itália se comprometeu a devolver a peça. A promessa ficou parada por quase 60 anos.
  • 2002: o raio danificou a estela em Roma.
  • 2005: as três partes voltaram em voos de um cargueiro Antonov An-124, nos dias 19, 22 e 25 de abril. A operação custou à Itália US$ 7,7 milhões.
  • 2008: a estela foi remontada com barras de fibra de aramida no lugar do aço e reinaugurada em Axum em 4 de setembro.

A história ajuda a entender o tema mais amplo do fim do colonialismo no continente, tratado no post sobre as independências africanas. A Etiópia é um caso à parte: resistiu à colonização no século 19 e sofreu só a ocupação italiana entre 1936 e 1941.

Igreja em Axum, Etiópia

Santa Maria de Sião e a Arca da Aliança

A Igreja Ortodoxa Etíope afirma que a Arca da Aliança está guardada numa capela anexa à igreja de Santa Maria de Sião, em Axum. Segundo a tradição narrada no Kebra Nagast, texto etíope do século 14, a Arca teria sido levada de Jerusalém por Menelik I, filho do rei Salomão com a Rainha de Sabá.

Não há como verificar a afirmação: só um monge guardião pode entrar na capela, e ninguém de fora jamais viu o objeto. Para os fiéis, porém, a crença tem efeito prático. Cada igreja ortodoxa etíope guarda um tabot, uma réplica das tábuas da Lei, que sai em procissão nas grandes festas. A igreja antiga de Santa Maria de Sião não admite a entrada de mulheres, regra que vale também para visitantes. A capela atual da Arca foi construída com recursos da imperatriz Menen, no século 20.

Dá para visitar Axum agora?

Em outubro de 2026, não é recomendável. Axum fica na região de Tigré, e o governo britânico, em aviso atualizado em 16 de outubro de 2026, desaconselha qualquer viagem à região por causa de combates em andamento; os voos civis de e para Tigré foram suspensos em 22 de setembro de 2026. O mesmo aviso desaconselha viagens à região vizinha de Amhara, onde ficam Lalibela e Gondar.

Quando a situação permitir, o acesso tradicional é por voo doméstico a partir de Adis Abeba. Antes de qualquer plano, consulte os alertas do Itamaraty e do governo britânico, e leia o guia de segurança na África. Enquanto isso, a capital oferece um bom contato com essa história no Museu Nacional da Etiópia e na cultura do café, contada no post sobre a cerimônia do bunna.

Para comparar com outra grande civilização africana de pedra, veja o Grande Zimbábue.

Fontes