Reino de Axum: os obeliscos que testemunham a Etiópia antiga
Antes do Império Romano declinar, o Reino de Axum já era uma potência comercial na África - conheça os obeliscos e a história por trás deles.
Por Equipe Destinos de África
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No norte da atual Etiópia, entre aproximadamente o ano 100 e o ano 940 da era cristã, floresceu o Reino de Axum, uma das grandes potências comerciais do mundo antigo - historiadores da época chegaram a citá-lo ao lado de Roma, Pérsia e China entre os quatro grandes impérios do período, uma afirmação que hoje soa surpreendente para quem não conhece essa parte menos difundida da história africana.
Uma posição estratégica no comércio antigo
Axum devia sua riqueza à posição geográfica privilegiada, conectando o interior da África, através do Mar Vermelho, às rotas comerciais marítimas que ligavam o Império Romano à Índia - o reino exportava marfim, ouro e outros bens valiosos, e chegou a cunhar sua própria moeda, um sinal claro de sofisticação econômica raro entre potências da época.
Os obeliscos gigantes
O símbolo mais reconhecível de Axum são seus obeliscos monumentais - estelas de granito esculpidas para marcar túmulos reais, algumas com mais de 20 metros de altura, decoradas com relevos que imitam a estrutura de prédios de vários andares, com janelas e portas falsas esculpidas na pedra. O maior deles já erguido, com mais de 30 metros, está caído e quebrado há séculos, provavelmente devido ao próprio peso durante ou logo após sua instalação.
Uma das primeiras nações cristãs do mundo
Axum foi um dos primeiros reinos do mundo a adotar oficialmente o cristianismo como religião de estado, no século 4 - antes mesmo do Império Romano fazer o mesmo de forma oficial e duradoura. Esse legado religioso permanece extremamente vivo na Etiópia moderna, cuja Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo mantém, até hoje, tradições litúrgicas antigas raras de se encontrar em qualquer outro lugar do mundo cristão.

Foto: Miko Stavrev / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
A lenda da Arca da Aliança
Segundo uma tradição etíope antiga e profundamente enraizada, a verdadeira Arca da Aliança bíblica - trazida, segundo a lenda, por Menelik I, filho do Rei Salomão com a Rainha de Sabá - estaria guardada até hoje numa capela específica em Axum, a Capela da Tábua da Aliança, vigiada por um único monge guardião que, segundo a tradição, nunca deixa o local e é o único ser humano autorizado a vê-la. Embora a alegação não possa ser verificada por pesquisadores externos (o acesso à capela é estritamente proibido a qualquer pessoa além do guardião), ela permanece central à identidade religiosa etíope e é uma das razões pelas quais Axum é considerada a cidade mais sagrada do cristianismo ortodoxo etíope.
Um obelisco que voltou para casa
Um dos episódios mais simbólicos ligados a Axum na era moderna aconteceu em 2005: um dos maiores obeliscos do sítio, levado para a Itália como espólio de guerra durante a ocupação fascista da Etiópia nos anos 1930, foi finalmente devolvido ao país após décadas de negociações diplomáticas - um dos casos de repatriação de patrimônio cultural africano mais celebrados das últimas décadas, e frequentemente citado em debates internacionais sobre a devolução de artefatos retirados da África durante o colonialismo.
O declínio de um império comercial
O declínio de Axum, a partir do século 7, está historicamente ligado à ascensão do Islã na Península Arábica e na região do Mar Vermelho - com o avanço de novas potências islâmicas controlando cada vez mais as rotas comerciais marítimas que antes beneficiavam diretamente o reino axumita, Axum gradualmente perdeu acesso privilegiado ao comércio internacional que sustentara sua riqueza por séculos. Isolado comercialmente e enfrentando mudanças climáticas que teriam afetado a agricultura da região segundo alguns estudos arqueológicos recentes, o centro político do que viria a se tornar a Etiópia moderna gradualmente se deslocou para o interior do planalto etíope, embora Axum tenha permanecido, até hoje, um centro religioso e simbólico de importância inigualável para a identidade etíope.
Moedas que contam uma história
Axum foi um dos primeiros reinos da África Subsaariana a cunhar sua própria moeda, com peças de ouro, prata e bronze que circularam pela região entre os séculos 3 e 7 - um dos poucos exemplos de cunhagem de moeda por um reino africano documentado tão detalhadamente por arqueólogos, e uma evidência direta do nível de sofisticação econômica e comercial alcançado pelo reino. Curiosamente, moedas axumitas mais tardias já traziam inscrições e símbolos cristãos, documentando visualmente a transição religiosa do reino ao longo dos séculos, um registro numismático raro da conversão de um estado inteiro ao cristianismo capturado literalmente na própria moeda circulante da época.
Uma das "Sete Maravilhas" do continente por direito próprio
Ao lado de locais já mencionados em outros artigos deste guia, os obeliscos de Axum e o conjunto arqueológico ao redor deles são frequentemente incluídos em listas das maravilhas naturais e culturais mais impressionantes da África, reconhecidos não apenas pela escala das próprias estelas, mas pela sofisticação técnica necessária para esculpir, transportar e erguer blocos de granito de dezenas de toneladas há mais de 1.700 anos, usando apenas ferramentas e conhecimento de engenharia disponíveis na época - uma façanha que segue intrigando engenheiros e arqueólogos que estudam como, exatamente, os construtores axumitas conseguiram erguer estruturas tão altas e pesadas sem o auxílio de máquinas modernas.
A Rainha de Sabá na tradição etíope
A lenda da Rainha de Sabá ocupa lugar central na mitologia fundacional da monarquia etíope: segundo o Kebra Nagast ("Glória dos Reis"), um texto etíope medieval, a rainha teria visitado o Rei Salomão em Jerusalém, com quem teve um filho, Menelik I - que, já adulto, teria retornado a Jerusalém, e na volta trazido consigo a Arca da Aliança para Axum, dando início a uma linhagem real que a tradição etíope considera ter governado o país, com poucas interrupções, até a deposição do imperador Haile Selassie em 1974. Essa narrativa, embora historicamente não verificável por fontes externas independentes, moldou profundamente a legitimidade política e religiosa da monarquia etíope por séculos, e ainda hoje é tratada com reverência por parte significativa da população do país.
Um patrimônio ainda em processo de restauração
Além do obelisco devolvido pela Itália em 2005, outros artefatos e tesouros associados a Axum permanecem fora do país, em museus e coleções privadas europeias, resultado tanto do período de ocupação italiana quanto de aquisições anteriores por exploradores e colecionadores ao longo dos séculos 19 e 20. O debate sobre repatriação desses itens segue em curso, parte de uma conversa internacional mais ampla sobre a devolução de patrimônio cultural africano removido durante períodos coloniais - um movimento que ganhou força significativa nas últimas duas décadas, com museus europeus cada vez mais pressionados a revisar suas próprias coleções e políticas de aquisição histórica.
É um processo lento, mas que segue avançando gradualmente, item por item, à medida que mais instituições europeias revisam suas próprias coleções históricas.
Um reino que também deixou marcas na paisagem
Além dos obeliscos, o entorno de Axum preserva outras estruturas monumentais menos conhecidas internacionalmente, incluindo tumbas reais subterrâneas elaboradas e os restos de antigos palácios, alguns ainda em processo de escavação arqueológica - cada nova campanha de pesquisa na região tende a revelar mais detalhes sobre a extensão real e a sofisticação urbana da antiga capital axumita, cuja área total ocupada, segundo estimativas arqueológicas mais recentes, provavelmente superava em muito o que é visível a olho nu pelos visitantes de hoje.
É um trabalho arqueológico que segue avançando lentamente, restrito por recursos limitados e pela complexidade de escavar sob uma cidade moderna que segue habitada e em pleno funcionamento.
Uma cidade que carrega, literalmente, camadas de história empilhadas sob suas ruas movimentadas de hoje.
Cada nova obra de infraestrutura na Axum moderna traz consigo a possibilidade real de novas descobertas arqueológicas inesperadas.
Um lembrete constante de que, em cidades com camadas tão profundas de história, o passado nunca está completamente enterrado - está sempre a poucos metros abaixo da superfície, esperando para ser redescoberto.
Axum segue sendo, décadas depois de qualquer expedição arqueológica pioneira, um dos lugares mais promissores do continente para futuras descobertas que ainda podem reescrever partes da história antiga da região.
Uma cidade que, apesar de pequena hoje, já foi centro de um dos maiores impérios do mundo antigo, e cujo legado segue moldando a identidade religiosa e cultural de toda uma nação.
Como visitar
Axum é uma cidade relativamente remota no norte da Etiópia, geralmente incluída em roteiros mais longos pelo chamado "Norte Histórico" do país, ao lado de Gondar e Lalibela - o Museu Arqueológico de Axum, próximo ao campo de obeliscos, ajuda a contextualizar as descobertas feitas no local, incluindo achados que, segundo a tradição etíope, estariam ligados à lendária Rainha de Sabá.



