Numa cabana redonda de barro em Niagassola, no norte da Guiné, fica guardado um balafom de cerca de 1,5 metro, com 20 teclas de madeira e cabaças presas por baixo. Segundo a tradição, ele pertenceu a Sumaoro Kanté, rei do Sosso no início do século 13. Só um homem pode tocá-lo, o patriarca da família Kouyaté local, e apenas em ocasiões como o Ano Novo muçulmano e os funerais. O Sosso-Bala entrou em 2001 na primeira proclamação de obras-primas do patrimônio imaterial da UNESCO, foi inscrito na lista representativa em 2008 e ajuda a entender quem são os griots.
O que é um griot
Griot é o nome em francês, de origem incerta, para os historiadores, genealogistas, poetas e músicos hereditários da África Ocidental. Em mandinga eles se chamam jali ou jeli, palavra ligada à ideia de "sangue". Entre os wolof do Senegal, gewel. Entre os serer, kevel.
A função passa de pais para filhos dentro de famílias específicas, que tradicionalmente se casam entre si. Sobrenomes como Kouyaté, Diabaté, Cissokho, Suso e Jobarteh carregam essa herança. O aprendizado não acontece em escola: a criança cresce ouvindo, repetindo e tocando ao lado dos mais velhos até dominar as genealogias, as canções e os instrumentos.
Memória, conselho e poder da palavra
Historicamente, cada família nobre tinha seus griots. Eles recitavam a genealogia dos patronos, aconselhavam reis, mediavam disputas e levavam recados delicados entre partes em conflito. Em casamentos e batizados, cantavam louvores às famílias e lembravam os feitos dos antepassados.
Essa posição dava aos griots uma liberdade rara: podiam criticar pessoas de status superior, muitas vezes com frases ambíguas, cheias de duplo sentido. Um elogio podia virar sátira, e a reputação de alguém dependia em parte do que os griots diziam dela. Ao mesmo tempo, alguns estudiosos lembram que os griots também serviram aos poderosos, o que alimenta debates sobre seu papel.
As mulheres têm lugar próprio na tradição. As jelimusow (griottes) cantam os louvores, preparam e aconselham as noivas e, no Mali, costumam ter mais destaque do que em partes da Senegâmbia. As de maior conhecimento histórico recebem o título de ngara.
Sundiata e a origem dos Kouyaté
A narrativa mais famosa preservada pelos griots é a epopeia de Sundiata Keita, fundador do Império do Mali no século 13. Ela conta a infância difícil do príncipe, o exílio e a guerra contra Sumaoro Kanté, o rei-feiticeiro do Sosso, dono do balafom mágico. Segundo a tradição, Balla Fasséké, griot de Sundiata, se tornou o fundador da linhagem dos Kouyaté, que até hoje guarda o Sosso-Bala.
A versão mais lida fora da África é "Soundjata ou l'épopée mandingue", publicada em 1960 pelo historiador guineense Djibril Tamsir Niane a partir da narração de um griot. O império que nasce dessa história é o mesmo de Mansa Musa, que governou no século seguinte.
Os instrumentos
- Kora: harpa-alaúde de 21 cordas, com caixa de cabaça coberta de couro e braço longo de madeira. É o instrumento mais associado aos jali da Gâmbia, do Senegal, do Mali e da Guiné.
- Balafom: xilofone de teclas de madeira com cabaças de ressonância, o mesmo tipo do Sosso-Bala.
- Ngoni: alaúde de cordas pinçadas, de corpo de madeira coberto de couro, muito tocado no Mali.
- Xalam: o alaúde equivalente entre os wolof do Senegal.

Foto: Michael Coghlan from Adelaide, Australia / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Músicos de famílias griot para ouvir
A gravação mudou o ofício no século 20. O microfone ampliou as plateias e muitos griots passaram a viver de shows e discos. Alguns nomes para começar:
- Toumani Diabaté (1965-2024), do Mali. A tradição da família fala em 70 gerações de músicos antes dele. Ganhou o Grammy de 2006 com "In the Heart of the Moon", gravado com Ali Farka Touré, e lançou o aclamado disco solo "The Mandé Variations" (2008). Seu pai, Sidiki Diabaté, gravou o primeiro álbum de kora, em 1970.
- Sona Jobarteh, de família griot da Gâmbia, apontada como a primeira mulher de uma família griot a se tornar kora profissional. Com o pai, Sanjally Jobarteh, ajudou a criar uma escola de música na Gâmbia.
- Mory Kanté e Sory Kandia Kouyaté, da Guiné.
- Foday Musa Suso e Papa Susso, da Gâmbia.
- Youssou N'Dour, do Senegal, que tem raízes griot pela família da mãe, embora não tenha sido criado na tradição.
Vale um cuidado: nem todo grande cantor da região é griot. Salif Keita, por exemplo, descende da linhagem nobre de Sundiata, e sua opção pela música chegou a ser malvista justamente por isso. Comparar rappers a griots também é comum, mas é uma comparação discutida.
Onde ouvir griots hoje
O Mali é o coração histórico da tradição, mas em outubro de 2026 viajar para lá não é recomendável: o governo britânico desaconselha qualquer viagem ao país, incluindo Bamako, por causa de ataques e bloqueios de grupos armados. Veja o contexto no texto sobre as máscaras dogon.
Para quem quer ouvir a música ao vivo na região, Senegal e Gâmbia são os caminhos mais acessíveis para brasileiros, que não precisam de visto para o Senegal em estadias de até 90 dias. Em Dakar, casas de show e centros culturais recebem músicos de kora e de mbalax, o gênero popular de Youssou N'Dour. Uma visita à Ilha de Gorée pode ser combinada no mesmo roteiro, assim como um almoço de thieboudienne, o prato que está na origem da Guerra do Jollof. Fora da África, músicos de famílias griot fazem turnês frequentes por festivais de música do mundo.





