Em 2014, uma receita de jollof rice publicada pelo chef britânico Jamie Oliver levou tomate-cereja, coentro, limão e salsinha. A reação na internet nigeriana e ganesa foi tão grande que a hashtag #jollofgate entrou nos assuntos do momento e a equipe do chef precisou se explicar. O episódio resume bem a "Guerra do Jollof": uma briga bem-humorada, mas levada a sério, sobre quem faz o melhor arroz vermelho da África Ocidental.

O prato em si é simples de descrever. Arroz cozido diretamente num molho de tomate, pimentão, cebola e pimenta, até absorver todo o líquido e ganhar cor alaranjada. O que gera discussão são os detalhes, e eles mudam de país para país.

De onde vem o nome

"Jollof" vem de Jolof, o império wolof que dominou parte do atual Senegal e da Gâmbia a partir de cerca do século 12. A versão mais aceita é que o antepassado do prato seja o thieboudienne (em wolof, ceebu jën, "arroz com peixe"), nascido entre as comunidades pesqueiras da ilha de Saint-Louis, no norte do Senegal.

Há outras explicações. Alguns pesquisadores ligam a popularização do arroz na região ao período colonial, quando o cultivo de amendoim para exportação empurrou o arroz importado para a mesa senegalesa. Uma história oral de Saint-Louis atribui a receita a uma cozinheira chamada Penda Mbaye, que teria trocado cevada por arroz. São versões difíceis de comprovar, e é por isso que a origem também entra na briga.

Em dezembro de 2021, a UNESCO inscreveu o ceebu jën na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento é do prato senegalês, com peixe, arroz quebrado e legumes da estação, e não do jollof em geral, como chegou a circular em alguns sites.

Prato de arroz da culinária da África Ocidental

Foto: Aboukam / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Nigéria x Gana: o que muda no prato

A diferença mais citada está no arroz. O jollof ganês costuma usar arroz jasmim (às vezes basmati), mais perfumado e de grão solto. O nigeriano prefere arroz de grão longo parboilizado, como o Golden Sella, que aguenta o cozimento longo no molho sem empapar.

Jollof nigerianoJollof ganês
ArrozGrão longo parboilizadoJasmim ou basmati
PerfilMais defumado, molho mais encorpadoMais aromático, tempero mais marcado
Proteína comumFrango, peru, carne, peixe croakerCarne bovina, cabra, frango
AcompanhamentosBanana-da-terra frita, moi-moi, coleslawBanana-da-terra, peixe frito, molho shito

O ponto de honra nigeriano é o "party jollof", feito em panelões sobre fogo de lenha em casamentos e festas. A fumaça dá um sabor defumado e forma no fundo da panela uma crosta tostada, o "bottom pot", parente do tahdig persa e do socarrat da paella. Em Gana, quem defende o prato local costuma citar o shito, molho escuro de pimenta com peixe seco e camarão, como o complemento que falta do outro lado.

Os capítulos da rivalidade

A disputa ganhou força nas redes sociais na década de 2010. Em 2016, a cantora ganesa Sister Deborah lançou uma música provocando a versão nigeriana. No mesmo período, uma briga por falta de jollof num comício político em Gana virou motivo de piada entre nigerianos. Desde 2015, o 22 de agosto é celebrado por fãs como o Dia Mundial do Jollof, e o Google dedicou um doodle ao prato em 3 de novembro de 2022.

Outros países não aceitam ficar de fora. Serra Leoa, Libéria, Gâmbia e Camarões têm versões próprias, com variações como extrato de tomate no lugar de azeite de dendê, menos frutos do mar ou pimentão e páprica defumada. O Senegal, por sua vez, costuma lembrar que tudo começou lá.

Thieboudienne, o "avô" senegalês

O thieboudienne é bem diferente do jollof festivo de Lagos ou Acra. Leva peixe (tradicionalmente o thiof, uma garoupa local), recheado com uma pasta de salsinha, alho e pimenta, arroz quebrado cozido no caldo do peixe e legumes como mandioca, repolho, berinjela, cenoura e quiabo. É servido numa travessa grande, para comer em grupo.

A UNESCO destaca que a receita e as regras de etiqueta à mesa passam de mãe para filha, embora os homens participem mais do que antes. Quem visita Dakar e a Ilha de Gorée encontra o prato em praticamente qualquer restaurante de comida local, geralmente no almoço.

Como provar cada versão

Em Gana, o jollof aparece em restaurantes de bairro, nas "chop bars" e em barracas de comida de rua, quase sempre com frango e shito. Quem passa por Acra vai encontrar o prato com facilidade. Na Nigéria, a versão de festa é a referência, mas o jollof do dia a dia, mais simples, é comum em restaurantes populares.

Em casa, o segredo apontado por cozinheiros da região está mais na técnica do que na lista de ingredientes: refogar bem a base de tomate, pimentão e cebola até perder a acidez, e só então colocar o arroz cru para cozinhar no próprio molho, com pouco líquido e fogo baixo. Pimenta scotch bonnet, louro, tomilho e curry em pó são os temperos mais comuns.

Parentes do outro lado do Atlântico

Pesquisadores da culinária da diáspora apontam semelhanças entre o jollof e pratos de arroz cozido em caldo temperado nas Américas, como o jambalaya da Louisiana e alguns arrozes da cozinha afro-caribenha. A ligação seria a técnica, levada por africanos escravizados de regiões produtoras de arroz da África Ocidental. Não são o mesmo prato, mas compartilham a lógica de cozinhar o arroz direto no molho.

Para quem gosta de comparar cozinhas do continente, o jollof faz par com outros pratos que viraram símbolo nacional, como o tagine marroquino, a injera etíope e o frango piri-piri de Moçambique.

Fontes