No fim do corredor térreo da Maison des Esclaves, uma porta estreita se abre direto para o Atlântico. Foi diante dela que o papa João Paulo II, Nelson Mandela e Barack Obama posaram para fotos, e é por causa dela que a pequena Ilha de Gorée, a 2 km do porto de Dakar, se tornou um dos lugares de memória do tráfico de africanos escravizados mais conhecidos do mundo. Também é um dos mais discutidos pelos historiadores.
Entender os dois lados não diminui a visita. Ajuda a enxergar o que de fato aconteceu em Gorée e por que a ilha ganhou o papel simbólico que tem hoje.
A ilha em números
Gorée tem cerca de 900 metros de comprimento por 350 de largura, 18 hectares no total, e perto de 1.700 moradores no censo de 2013. Não circulam carros. Foi inscrita como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1978, na segunda sessão do comitê, entre os primeiros sítios do mundo a receber o título.
Poucos lugares mudaram tanto de dono. Os portugueses chegaram em 1444, os holandeses tomaram a ilha em 1588 e a disputa com ingleses e franceses durou mais de dois séculos, com trocas sucessivas até 1815. Daí em diante Gorée foi francesa até a independência do Senegal, em 1960.
A Maison des Esclaves
O sobrado rosado foi construído por volta de 1776 por Nicolas Pépin, irmão da influente signare Anne Pépin. As signares eram mulheres de origem africana e europeia que controlavam negócios, navios e imóveis na ilha. A casa ficou mais associada à filha de Nicolas, Anna Colas Pépin, que viveu ali no início do século 19. A família tinha navios e, segundo o histórico da casa, usava o térreo para manter africanos escravizados à espera de embarque.
O museu foi aberto em 1962 graças ao trabalho de Boubacar Joseph Ndiaye, curador por décadas. Ndiaye guiava os visitantes pelas celas do térreo, separadas por homens, mulheres e crianças, e apresentava a porta dos fundos como a última passagem dos cativos antes dos navios. Sua narração, em tom de denúncia, marcou gerações de visitantes. Hoje uma das embarcações que fazem a travessia de Dakar leva o nome dele.
O que dizem os historiadores
Ndiaye afirmava que mais de um milhão de pessoas passaram por aquela porta, e alguns de seus defensores chegaram a falar em 15 milhões, número maior que a estimativa total do tráfico atlântico, hoje calculada em cerca de 12,75 milhões de africanos embarcados para as Américas. A maioria dos pesquisadores considera esses números sem base documental.
O historiador Philip Curtin, em levantamento de 1969, contou cerca de 180 mil africanos escravizados embarcados em postos franceses da Senegâmbia entre 1711 e 1810, a maior parte por outros pontos, como Saint-Louis, e não por Gorée. Outros pesquisadores registram cerca de 26 mil pessoas passando pela ilha. Curtin também argumentou que a porta foi construída tarde demais para ter tido papel relevante no tráfico. A historiadora Ana Lucia Araujo, brasileira radicada nos Estados Unidos, resumiu a crítica dizendo que a casa não é um lugar de onde pessoas reais partiram nos números citados.
Isso não apaga o fato de que Gorée foi, sim, entreposto do tráfico, nem o peso do lugar para quem o visita. O que o debate mostra é que a casa funciona como monumento a uma tragédia muito maior do que ela mesma. Os grandes volumes saíram de outras regiões, como a costa de Angola e do Congo e o Golfo do Benim, de onde veio a maior parte dos africanos levados ao Brasil.
Outros lugares para ver na ilha
A visita à casa leva pouco tempo. O restante do dia pode ser dividido entre:
- Museu Histórico do Senegal, instalado no Fort d'Estrées, no norte da ilha.
- Castel, a parte alta da ilha, com antigas posições de artilharia e vista para Dakar.
- Museu do Mar e o antigo Palácio do Governo.
- Ruas e praças com casarões coloniais, buganvílias e ateliês de artistas, além da pequena praia ao lado do cais.
Como chegar e quanto custa
A chaloupe (balsa de passageiros) sai do porto de Dakar e leva cerca de 20 minutos. Segundo o guia Au Sénégal, a tarifa de ida e volta para adulto não residente na África é de 6.000 francos CFA (3.000 para crianças), e a ilha cobra uma taxa municipal de 500 francos CFA por pessoa. O site não informa a data da tabela, então confirme no porto. Não há reserva: a passagem é comprada na hora, e o jornal Le Soleil relata atrasos, horários irregulares e filas longas na travessia.
Meio dia basta para a casa e uma volta pela ilha; um dia inteiro permite visitar os museus com calma e almoçar por lá. O prato senegalês mais pedido nos restaurantes da ilha é o thieboudienne, o arroz com peixe que está na origem da Guerra do Jollof.
Entrada no Senegal para brasileiros
Brasileiros não precisam de visto para estadias turísticas de até 90 dias no Senegal. O país exige certificado de vacinação contra febre amarela de viajantes a partir de 9 meses vindos de países com transmissão da doença, como o Brasil, o que inclui conexões de mais de 12 horas nesses países, segundo o CDC. Leve o CIVP emitido pela Anvisa. Mais detalhes no guia de vacinas e saúde na viagem.
Para ampliar o roteiro
Em Dakar, Gorée costuma ser combinada com o Monumento do Renascimento Africano, estátua de bronze inaugurada em 2010 nas colinas de Ouakam, e com o Museu das Civilizações Negras, aberto em 2018. Quem quer seguir a história do tráfico pela costa pode comparar com os castelos de Cape Coast e Elmina, perto de Acra, em Gana. A música e a memória oral da região estão no texto sobre os griots, e o contexto do fim do domínio francês, em as independências africanas.





