O censo queniano de 2019 contou cerca de 1,19 milhão de maasai, mais que o triplo dos 377 mil de 1989. Somando a Tanzânia, onde vivem por volta de um milhão, são mais de dois milhões de pessoas espalhadas do centro do Quênia ao norte tanzaniano. Muitos estão em cidades, escolas e escritórios; outros seguem vivendo do gado nas mesmas terras que os turistas atravessam a caminho do safári.

Este texto reúne o que ajuda o viajante a entender esse povo antes de visitá-lo, e o que fazer para que a visita deixe algo para a comunidade.

Gado, língua e crença

Os maasai são um povo nilótico, e sua língua, o maa, é aparentada com idiomas como o dinka e o nuer, do Sudão do Sul, e diferente das línguas bantas da maioria dos vizinhos. O nome do Masai Mara vem do maa: mara quer dizer "pintado", referência às árvores baixas que salpicam a planície.

O gado é a base da economia e da identidade. Na tradição, Enkai (ou Engai), o deus único dos maasai, entregou todo o gado do mundo a eles. A dieta tradicional se apoiava em carne, leite e sangue do rebanho, mas um estudo de 2010 citado pela Wikipédia mostrou que alimentos vegetais, sobretudo o ugali (massa de milho), já respondiam por mais da metade da alimentação.

As casas ficam num enkang, também chamado manyatta: um conjunto de casas baixas de galhos, barro e esterco, dispostas em círculo em torno do curral e protegidas por uma cerca de espinhos.

Grupos de idade e a passagem a ancião

A vida masculina é organizada em grupos de idade. Depois da circuncisão, os jovens se tornam ilmurran, os guerreiros (o termo "morani" é a forma mais conhecida em suaíli), responsáveis por proteger o gado e a comunidade. A fase termina com o eunoto, cerimônia em que os guerreiros raspam os cabelos longos e passam a ser considerados adultos aptos a casar e, mais tarde, anciãos.

Guerreiros maasai durante o adumu, a dança do salto

Foto: Erasmus Kamugisha / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O adumu, a dança em que os jovens saltam no centro de um círculo enquanto os outros cantam em tom grave, é a imagem mais conhecida dessa fase. O canto maasai usa chamada e resposta sobre um som contínuo de vozes graves, e é tão característico quanto o salto.

O vestuário também comunica. O shúkà, tecido quadriculado em geral vermelho, e as miçangas indicam origem, idade e posição social. O trabalho com miçangas é feito principalmente pelas mulheres e, em muitas aldeias, virou a principal renda própria delas.

Como os maasai perderam terra para os parques

O território maasai foi maior em meados do século 19, cobrindo boa parte do Vale do Rift. Entre 1883 e 1902, um período lembrado como emutai, epidemias de pleuropneumonia bovina, peste bovina e varíola, somadas à seca, mataram a maior parte do gado e uma parcela enorme da população. Depois vieram as perdas de terras para a colonização e, mais tarde, para as áreas protegidas.

Os maasai foram retirados do Serengeti pelas autoridades coloniais em 1951. Parques e reservas como o Masai Mara, Amboseli e Ngorongoro ocupam terras de pastagem tradicional. Na Área de Conservação de Ngorongoro, os maasai podem morar, mas a agricultura foi proibida em 1975 e só voltou a ser permitida em 1992.

O conflito continua. Em junho de 2022, forças de segurança tanzanianas reprimiram protestos contra a demarcação de uma área de caça em Loliondo, com relatos de dezenas de feridos e ao menos um morto. Em Ngorongoro, o governo transfere moradores para Msomera, a cerca de 600 km, num programa que chama de voluntário e que a Human Rights Watch acusa de coerção. É um contexto que o viajante deve conhecer antes de comprar uma "visita cultural" na região.

Conservancies: turismo que paga aluguel

No Quênia, um modelo diferente ganhou força em volta do Masai Mara. Em vez de vender ou cercar seus lotes, proprietários maasai os arrendam a conservancies, áreas privadas de conservação geridas em parceria com acampamentos de safári. A renda do aluguel vai direto às famílias, o gado continua circulando em áreas e épocas combinadas, e o número de veículos de turismo é limitado. A Maasai Mara Wildlife Conservancies Association (MMWCA) reúne essas áreas.

Para o viajante, escolher um acampamento numa conservancy é uma das formas mais diretas de fazer o dinheiro do safári chegar às famílias donas da terra. Isso aparece no roteiro do Quênia clássico.

Visitar uma aldeia: o que observar

Visitas a aldeias maasai são vendidas em quase todo roteiro de safári no Quênia e na Tanzânia. A qualidade varia de um encontro honesto a uma encenação montada perto da estrada, com venda insistente de artesanato. Algumas perguntas ajudam a separar uma coisa da outra:

  • Para quem vai o pagamento? Prefira aldeias com acordo direto com o acampamento ou a conservancy, e pergunte se a taxa é paga à comunidade ou só ao guia.
  • Quem conduz a visita? Um morador que fale do próprio cotidiano é melhor que um roteiro decorado.
  • Fotos: peça permissão antes de fotografar pessoas, especialmente mulheres e crianças, e aceite um não. Pergunte ao guia, antes de sair, se a taxa da visita já inclui fotos.
  • Artesanato: comprar miçangas direto das mulheres que as fazem é uma das formas mais eficazes de deixar renda. Negociar é normal, mas sem exagero.
  • Escolas e doações: evite distribuir doces ou dinheiro a crianças. Se quiser ajudar, procure projetos com prestação de contas.

Também vale evitar temas de forma superficial. A mutilação genital feminina, chamada emuatare, ainda é praticada em muitas comunidades maasai apesar de proibida por lei, e há ativistas maasai, como Agnes Pareyio, que lideram campanhas contra ela. Não é assunto para uma conversa casual com o anfitrião, mas ajuda a entender que a cultura maasai é discutida e transformada por dentro.

Onde a cultura maasai aparece numa viagem

  • Quênia: as conservancies do Mara, Amboseli e a região de Kajiado, perto de Nairóbi.
  • Tanzânia: a Área de Conservação de Ngorongoro, Loliondo e as planícies entre Arusha e o Serengeti, no caminho do roteiro de Tanzânia em 12 dias.

Em todos esses lugares, guias, rangers e donos de acampamentos maasai são cada vez mais comuns. Conversar com eles durante o safári costuma ensinar mais sobre o povo do que a visita de meia hora a uma aldeia.

Fontes