Os dois lagos aparecem juntos em listas de "grandes lagos africanos", mas quase não se parecem. O Vitória é um imenso prato raso, com profundidade média de cerca de 40 metros, cercado de cidades e de pesca industrial. O Malawi é uma fenda estreita do Vale do Rift, com mais de 700 metros no ponto mais fundo, praias de areia e água transparente. Para o viajante, um é porta de entrada para Uganda e para a nascente do Nilo; o outro é destino de praia e mergulho de água doce.
Os dois lagos em números
| Lago Vitória | Lago Malawi | |
|---|---|---|
| Países | Tanzânia (49%), Uganda (45%), Quênia (6%) | Malawi, Moçambique e Tanzânia |
| Área | Cerca de 60 mil km² | Cerca de 29,6 mil km² |
| Profundidade máxima | Cerca de 80 m | 706 m |
| Origem | Depressão entre os dois ramos do Rift | Fenda do ramo oeste do Rift |
| Peixes | Mais de 500 ciclídeos, cerca de 200 extintos | Ao menos 700 ciclídeos, a maioria endêmica |
| Cidades principais | Kampala, Entebbe, Jinja, Kisumu, Mwanza | Pequenas cidades e vilas de pesca |
O Lago Vitória é o maior lago da África e o maior lago tropical do mundo. A área exata muda conforme a medição: a Wikipédia usa cerca de 60 mil km², enquanto outras referências citam valores próximos de 69 mil km². Em qualquer dos casos, só o Lago Superior, na América do Norte, é maior entre os lagos de água doce.
Lago Vitória: o lago das cidades
O primeiro europeu a registrar o lago foi o explorador britânico John Hanning Speke, em 1858, que o batizou em homenagem à rainha Vitória e defendeu, com razão, que ali nascia o Nilo. O lago tem perto de mil ilhas, como Ukerewe, no lado tanzaniano, e o arquipélago de Ssese, em Uganda.
A tragédia dos ciclídeos
O lago abrigava mais de 500 espécies de ciclídeos haplocrominos, peixes pequenos e coloridos quase todos endêmicos. A introdução da perca-do-nilo, um predador de grande porte, somada à poluição por nutrientes, levou cerca de 200 delas à extinção. A Wikipédia descreve o caso como o exemplo mais dramático de extinções causadas pelo ser humano dentro de um único ecossistema. A mesma poluição favoreceu o aguapé, planta invasora que forma tapetes sobre a água, bloqueia barcos e tira oxigênio do lago.
Jinja e a nascente do Nilo
Jinja, em Uganda, fica a cerca de 81 km de Kampala, na margem norte do lago, onde o Nilo sai do Vitória, seu único escoadouro. A cidade virou base de turismo de aventura, com rafting em corredeiras do Nilo, bungee jump e passeios de barco até o ponto marcado como nascente. As barragens de Nalubaale, Kiira e Bujagali, construídas no rio perto da cidade, alteraram a paisagem: o próprio nome Jinja, "as pedras", vem das rochas que desapareceram com a primeira represa, em 1954.
Entebbe, onde fica o principal aeroporto de Uganda, também está na beira do lago. Por isso, viajantes que vão fazer o trekking de gorilas em Uganda costumam passar a primeira ou a última noite com vista para o Vitória.
O lado tanzaniano e o queniano
Mwanza, a maior cidade tanzaniana do lago, fica a poucas horas de estrada do corredor oeste do Serengeti, a região por onde a Grande Migração passa em maio e junho. Bukoba, mais a oeste, e Musoma, ao norte, completam a margem tanzaniana. No Quênia, Kisumu é a cidade de referência, com acesso a ilhas e vilas de pescadores do golfo de Winam.
Lago Malawi: praia de água doce
O lago se estende por cerca de 560 a 580 km, com até 75 km de largura, e é chamado de Lago Nyasa na Tanzânia e Lago Niassa em Moçambique. David Livingstone o chamou de "lago das estrelas", por causa das lanternas dos pescadores que pareciam estrelas à noite, e também de "lago das tempestades", pelos ventos fortes que levantam ondas de mar.
As fronteiras ainda geram atrito. Malawi e Moçambique dividiram o lago ao meio em 1954, mas as ilhas de Likoma e Chizumulu, perto da costa moçambicana, ficaram com o Malawi. Já a Tanzânia defende que a fronteira com o Malawi passa pelo meio do lago, enquanto o Malawi reivindica quase toda a superfície; a disputa voltou à tona em 2012 por causa de exploração de petróleo.
Cape Maclear e o Parque Nacional do Lago Malawi
No extremo sul, o Parque Nacional do Lago Malawi, criado em 1980 e Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1984, ocupa cerca de 94 km² de terra e água na península de Nankumba, que termina em Cape Maclear. O parque protege mais de 350 espécies de ciclídeos, os mbuna, quase todos endêmicos, que fazem do snorkel e do mergulho em água doce a principal atração. Treze ilhas fazem parte do parque, entre elas Thumbi West, Domwe e Mumbo.
Vilas de pescadores como Chembe, a maior delas, ficam dentro dos limites do parque sem fazer parte dele, e concentram as pousadas de Cape Maclear. Outros pontos de hospedagem no lado malawiano são Nkhata Bay, ao norte, e a ilha de Likoma. Do lado moçambicano, a costa da província de Niassa é bem mais isolada, e a porção moçambicana do lago foi declarada reserva em 2011.
O Lago Malawi também mostra por que os lagos do Rift são estudados como laboratório de evolução: centenas de espécies de ciclídeos surgiram de poucos ancestrais em tempo geológico curto, ocupando nichos diferentes ao longo das rochas e da areia do fundo.
O terceiro gigante: Tanganica
Entre os dois fica o Lago Tanganica, dividido por Tanzânia, Congo, Burundi e Zâmbia. É o lago mais profundo da África e um dos mais profundos do mundo, com quase 1.500 metros. O acesso turístico é limitado: o destino mais conhecido é o Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, onde Jane Goodall começou a estudar chimpanzés em 1960, alcançado de barco a partir de Kigoma.
Saúde: a questão da esquistossomose
Antes de nadar, o viajante precisa saber da esquistossomose, chamada de bilharzia na África. Caramujos dos dois lagos são hospedeiros intermediários do parasita, e a infecção humana é comum nas margens do Vitória. No Lago Malawi, um caramujo endêmico passou a transmitir o parasita no próprio lago a partir de meados dos anos 1980, o que desfez a antiga fama de águas totalmente seguras.
O risco é maior em águas paradas, perto de juncos e de vilas. Quem nada ou mergulha deve conversar com um médico sobre o exame de controle algumas semanas depois da volta, já que existe tratamento eficaz. A malária também está presente em toda a região; veja vacinas e saúde na viagem.
Como encaixar os lagos numa viagem
- Vitória: faz sentido como extensão de um roteiro por Uganda (gorilas, Jinja) ou como ponto de passagem para quem chega ao Serengeti pelo oeste. Também é vizinho de Kisumu para quem viaja pelo oeste do Quênia.
- Malawi: funciona como destino de descanso depois de safáris na Zâmbia ou no Malawi, ou como etapa de uma viagem longa por terra pelo sul e leste da África.
- Tanganica: pede tempo e logística própria, e costuma interessar a quem quer ver chimpanzés em Gombe ou Mahale.
Para comparar com outras paisagens de água do continente, o Delta do Okavango mostra o oposto: um rio que, em vez de formar um lago, se espalha e desaparece no deserto do Kalahari.





