Se você estiver na Etiópia hoje, o calendário na parede da recepção do hotel marca 18 de Tikimt de 2019. Não é erro de impressão. A Etiópia usa um calendário próprio, sete ou oito anos "atrás" do calendário gregoriano, com 13 meses e um Ano-Novo em setembro. Para completar, o relógio do dia a dia também começa a contar as horas de outro jeito.

Este guia explica de onde vem a diferença, como converter as datas e o que isso muda para quem viaja ao país.

Que ano é na Etiópia?

O ano etíope 2019 começou em 11 de setembro de 2026 e termina em 11 de setembro de 2027. O ano 2020 começa em 12 de setembro de 2027, porque o Ano-Novo cai um dia mais tarde no ano que antecede um ano bissexto gregoriano (2028).

A regra prática para converter:

  • De 1º de janeiro até 10 ou 11 de setembro, o ano etíope é o gregoriano menos 8.
  • De 11 ou 12 de setembro até 31 de dezembro, o ano etíope é o gregoriano menos 7.

Assim, março de 2027 corresponde a 2019 na Etiópia, e outubro de 2027 já corresponde a 2020.

Por que a diferença de sete ou oito anos

A distância não tem nada a ver com atraso ou isolamento. Ela vem de um cálculo feito no início da era cristã sobre a data da Encarnação, ou seja, da concepção de Jesus. Por volta do ano 400, o monge Aniano de Alexandria fixou essa data em 25 de março do ano 9 do calendário juliano. Mais de um século depois, em 525, o monge Dionísio, o Exíguo, chegou a uma data nove anos anterior, e foi a conta dele que a Europa adotou para numerar os anos.

A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, ligada historicamente à tradição de Alexandria, manteve o cálculo antigo. Por isso o ano 1 etíope começa em 29 de agosto do ano 8 do calendário juliano. A diferença de numeração se estabilizou entre sete e oito anos, conforme a época do ano.

O calendário é parente próximo do calendário copta, usado pela Igreja copta do Egito: os meses começam nos mesmos dias, mas os nomes são em ge'ez, a língua litúrgica etíope, e a contagem dos anos parte de outra época.

Treze meses: os nomes e as contas

O ano etíope tem 12 meses de 30 dias cada e um 13º mês curto, Pagume, com 5 dias, ou 6 nos anos bissextos. Os meses, a partir do Ano-Novo de setembro, são:

Mês etíopeComeça por volta de
Meskerem11 de setembro
Tikimt11 de outubro
Hidar10 de novembro
Tahsas10 de dezembro
Tir9 de janeiro
Yekatit8 de fevereiro
Megabit10 de março
Miyazya9 de abril
Ginbot9 de maio
Sene8 de junho
Hamle8 de julho
Nehase7 de agosto
Pagume6 de setembro

As datas de início são aproximadas e se deslocam um dia em torno dos anos bissextos. O bissexto etíope acontece a cada quatro anos, sem a exceção dos séculos que o calendário gregoriano aplica. Cada ano do ciclo de quatro leva o nome de um evangelista: João, Mateus, Marcos e Lucas, sendo o "ano de Lucas" o que ganha o sexto dia de Pagume.

Celebração do Meskel na Praça Meskel, em Adis Abeba

Foto: EsubalewA / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O relógio etíope começa ao amanhecer

Além do calendário, quase todos os etíopes usam no cotidiano um relógio de 12 horas modificado, em que o dia começa ao nascer do sol. O meio-dia e a meia-noite convencionais não servem de referência: 12h etíope corresponde às 6h da manhã no horário oficial (EAT, UTC+3), e a contagem recomeça a partir daí.

Horário oficial (EAT)Horário etíope falado
7h1h do dia
9h3h do dia
12h6h do dia
15h9h do dia
18h12h (fim do dia)
19h1h da noite

A lógica é simples quando se pensa na linha do Equador: o sol nasce e se põe perto das 6h e das 18h o ano todo, então faz sentido contar as horas a partir da luz. Para o viajante, a consequência é prática. Se alguém marcar uma saída "às 2", vale perguntar se é o horário etíope (8h da manhã) ou o internacional. Voos e documentos oficiais seguem o horário internacional, mas guias, motoristas e comerciantes podem usar qualquer um dos dois.

A Etiópia fica seis horas à frente de Brasília (UTC-3) e não adota horário de verão.

As festas que o calendário explica

Várias datas do calendário religioso caem em dias que parecem "fora do lugar" para quem vem do Brasil:

  • Enkutatash (Ano-Novo), 1º de Meskerem: 11 de setembro, ou 12 no ano anterior a um bissexto gregoriano. O nome significa "presente de joias" em amárico e remete à tradição de que a rainha de Sabá voltou de Jerusalém nessa data e foi recebida com joias. Pela manhã as famílias vão à igreja e almoçam injera com wat; à tarde, meninas com roupas novas distribuem buquês de margaridas amarelas (adey abeba) e cantam de porta em porta.
  • Meskel, 17 de Meskerem: 27 de setembro (28 nos bissextos). Comemora a descoberta da Vera Cruz por santa Helena e tem como centro uma grande fogueira, o Demera, acesa ao anoitecer. A festa principal acontece na Praça Meskel, em Adis Abeba, e foi inscrita pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial em 2013.
  • Genna (Natal): celebrado em 7 de janeiro, explicado em detalhe no guia do Natal etíope.
  • Timkat (Epifania): em janeiro, com procissões das réplicas da Arca da Aliança; veja o guia do Timkat.

O que muda na viagem

Na prática, hotéis, companhias aéreas e agências que trabalham com estrangeiros usam o calendário gregoriano, e o visto eletrônico segue as datas internacionais. O calendário etíope aparece em jornais, documentos locais, recibos e na conversa do dia a dia.

Alguns cuidados ajudam a evitar confusão:

  • Ao combinar passeios, confirme se o horário é etíope ou internacional.
  • Ao ver uma data impressa em documento local, lembre que o ano pode estar sete ou oito anos atrás.
  • Ao planejar viagens em setembro e janeiro, cheque as datas das festas: as celebrações religiosas reúnem multidões em igrejas e praças, e é prudente reservar hospedagem com antecedência.

O calendário é uma das marcas da identidade de um país que se orgulha de nunca ter sido colonizado, tema do texto sobre a Batalha de Adwa. Ele também conversa com outros rituais diários, como a cerimônia do café.

Fontes