Em fevereiro de 2025, a World Surf League levou a terceira edição do Pro Taghazout Bay, uma etapa do Qualifying Series, para Anchor Point, a direita mais famosa do Marrocos. Em março de 2026 o campeonato voltou. É um bom resumo do que Taghazout virou: uma vila berbere de pescadores, 19 quilômetros ao norte de Agadir, que hoje recebe desde quem nunca ficou de pé na prancha até atletas do circuito.

Por que a costa funciona

O litoral marroquino é conhecido pelas direitas longas que quebram em pontas de pedra, consistentes e menos disputadas do que as da Europa. Os swells gerados pelas tempestades de inverno no Atlântico Norte chegam de noroeste, e as pontas organizam essas ondulações em paredes longas. A melhor fase vai de setembro a abril, principalmente para quem já surfa bem. A água chega a cerca de 21 °C nos meses quentes; de outubro a abril, a escola Surf Maroc recomenda roupa de borracha 3/2 mm.

De maio a setembro as ondas costumam ser menores, com um swell maior de vez em quando. É a época das escolinhas, e um shorty ou até roupa de banho resolve.

Os picos, do mais fácil ao mais exigente

Panoramas. É a seção final, de dentro, da mesma ponta que forma Anchor Point, com fundo de areia e pedra em frente à vila. Funciona bem para iniciantes e para os dias de pouca energia.

Hash Point. Direita mais macia, com entrada por pedras, procurada quando Anchor está grande demais. Depende muito de como os bancos de areia se formam a cada ano, então pode estar ótimo numa temporada e fraco na seguinte.

Anchor Point. Direita longa e rápida que quebra numa ponta rochosa a cerca de 3 quilômetros ao norte da vila. Em dias clássicos, segundo a descrição mais citada, a onda pode correr por até 2 quilômetros ligando Anchor, Hash e Panoramas. É pico para surfista intermediário avançado em diante, com crowd na alta temporada e pedra na entrada e na saída.

Mysteries. Direita de fundo de pedra ao lado de Anchor.

Killer Point. Mais ao norte, aguenta os maiores swells e exige remada forte. O nome, segundo os guias locais, vem de orcas avistadas no passado, e não da onda em si.

Boilers. Fundo de recife raso, só para experientes e só com swell grande de inverno.

Ao sul da vila ficam Tamraght e praias como Anza, que serviu de local reserva no campeonato de 2025, com opções de beach break para quem está aprendendo.

Escolas, surf camps e o que esperar da vila

Taghazout tem dezenas de surf camps e escolas, a maioria com pacote de hospedagem, transporte até o pico do dia e aula. A vantagem do pacote para quem está começando é o transporte: o instrutor escolhe a praia conforme o mar, e muitas vezes ela não fica na vila. Quem já surfa pode alugar prancha e roupa avulsas.

A pesca segue como fonte de renda ao lado do turismo e da produção de óleo de argan. Os moradores mais antigos são berberes da tribo Ida Oufella, e o dialeto do dia a dia é o árabe marroquino, com francês, inglês e tachelhit também comuns. É uma vila muçulmana: fora da praia, roupas que cobrem ombros e joelhos evitam constrangimento.

Taghazout Bay e a mudança da paisagem

No fim dos anos 1960, a praia ao sul da vila virou ponto de acampamento de jovens viajantes, às vezes centenas ao mesmo tempo, em barracas e vans. Esse acampamento acabou proibido, e o governo passou a apostar em hotéis. O projeto Taghazout Bay, parte da estratégia nacional de turismo, previa cerca de 8 mil leitos, uma aldeia de surf e camping, a 15 quilômetros de Agadir. Moradores de Taghazout e Tamraght acompanham com preocupação a urbanização, e o resultado é visível: resorts grandes ao sul convivem com a vila apertada de casas baixas.

Fora d'água

Paradise Valley. Vale de palmeiras, argânias e piscinas naturais no rio Tamraght, a caminho de Imouzzer, nos contrafortes do Alto Atlas. Fica a cerca de 35 quilômetros de Agadir, e as cachoeiras da parte alta, perto de Imouzzer, só correm na época de chuva. O acesso é asfaltado, mas a estrada é sinuosa.

Agadir. A cidade mais próxima tem o souk El Had, grande mercado coberto, e a orla longa para caminhar. É também a saída para o vale do Sous e para o restante do sul.

Hammam e mesa. Depois de horas na água, um hammam de bairro e um tagine de peixe fecham bem o dia; o que pedir está no nosso texto sobre o tagine e a cozinha marroquina.

Imsouane: a onda longa ao norte

Seguindo a costa em direção a Essaouira, Imsouane é um vilarejo de pescadores numa baía protegida por falésias. Tem dois picos principais: La Baie, uma direita de ponta longa e mansa, boa para iniciantes e longboard, que funciona melhor da maré baixa à média; e La Cathédrale, beach break mais exposto, rápido e forte com swell de noroeste. Como o transporte público é limitado, o acesso é de carro ou táxi.

Como chegar do Brasil

O aeroporto Agadir-Al Massira fica em Temsia, cerca de 20 quilômetros a sudeste de Agadir; de lá a Taghazout são quase 40 quilômetros de estrada. Desde dezembro de 2024 a Royal Air Maroc opera voos diretos entre Guarulhos e Casablanca, com conexão doméstica para Agadir. Outra opção é chegar por Marraquexe e fazer o trecho por estrada, o que permite somar a viagem ao roteiro Marrocos em 10 dias.

Brasileiros não precisam de visto para turismo no Marrocos por até 90 dias, com passaporte válido por pelo menos seis meses. Para comparar com outros destinos de vento e ondas no Atlântico africano, veja nosso guia de Cabo Verde.

Fontes