Quem chega a Marraquexe pela primeira vez costuma se orientar por dois pontos fixos: o minarete da Mesquita Koutoubia, com 77 metros de altura, e a praça Jemaa el-Fnaa, a cerca de 200 metros dele. Quase tudo o que interessa ao visitante fica dentro das muralhas da medina, a cidade antiga fundada pela dinastia almorávida em 1070 e declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1985.

Este guia organiza a cidade pelo que de fato muda a visita: como a medina se distribui, o que a praça oferece em cada horário, quais monumentos valem o ingresso e onde faz sentido dormir.

Como a medina se organiza

As muralhas de taipa que cercam a cidade velha somam cerca de 19 quilômetros, com 20 portas e uns 200 torreões, e foram erguidas pelos almorávidas no século 12. A cor ocre-avermelhada da terra usada nelas e nas casas é a origem do apelido "cidade vermelha".

Na prática, a medina tem um eixo principal. Ao norte da Jemaa el-Fnaa começam os souks, que seguem o traçado das antigas ruas comerciais entre a fortaleza original e a primeira grande mesquita da cidade. Ao sul ficam a kasbah (a antiga cidadela real), os Túmulos Saadianos e o bairro do Palácio da Bahia. O GPS do celular funciona, mas perde precisão entre os muros altos; anotar o nome do riad e a porta de muralha mais próxima ajuda muito na volta.

Jemaa el-Fnaa: uma praça para cada horário

A praça não tem monumentos. O que a UNESCO reconheceu, primeiro em 2001 (como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial) e depois em 2008 (na Lista Representativa do Patrimônio Imaterial), foi o espaço cultural: contadores de histórias, músicos, curandeiros e artistas de rua que se apresentam ali há gerações. A própria ideia do programa de patrimônio imaterial da UNESCO surgiu de moradores preocupados com a pressão imobiliária sobre a Jemaa el-Fnaa.

De manhã e à tarde, dominam as barracas de suco de laranja, os vendedores de água com odres de couro e copos de latão e as tatuadoras de hena. No fim da tarde, montam-se as barracas de comida, que funcionam até a noite com espetinhos, caracóis cozidos, harira e tagines. As rodas de músicos gnawa e de contadores de histórias se formam nesse horário.

Um ponto de atenção: os encantadores de serpentes e os homens com macacos acorrentados continuam na praça, embora essas espécies sejam protegidas pela lei marroquina. Evitar fotos com os animais é a forma mais simples de não alimentar essa prática. Quem fotografa músicos ou artistas costuma ser cobrado por isso, então combine o valor antes.

Os souks e a arte de comprar

Os souks se dividem por ofício: há ruelas de tapetes, de couro, de lanternas de metal, de especiarias, de babuchas. O regateio é esperado, e o primeiro preço dito a um estrangeiro raramente é o final. Negociar com calma e bom humor funciona melhor do que discutir; se o valor não agradar, agradecer e seguir é perfeitamente normal.

Dois cuidados práticos. Desconfie de quem se oferece para "mostrar o caminho" sem ser chamado, porque o passeio costuma terminar numa loja com comissão. E prefira ver o produto à luz do dia antes de pagar, principalmente tapetes e artigos de couro.

Souk na medina de Marraquexe

Foto: Petar Milošević / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Monumentos que valem o ingresso

Mesquita Koutoubia. Fundada em 1147 pelo califa almóada Abd al-Mu'min e reconstruída por volta de 1158, tem o minarete concluído provavelmente por volta de 1195, modelo para a Giralda de Sevilha e a Torre Hassan de Rabat. Como na maioria das mesquitas do Marrocos, não-muçulmanos não entram; a visita é pelo exterior e pelos jardins, onde se veem as ruínas da primeira mesquita.

Medersa Ben Youssef. Encomendada em 1564-1565 pelo sultão saadiano Abdallah al-Ghalib, foi a maior escola corânica do Magrebe. O pátio com tanque, estuque esculpido, cedro e zellige (mosaico de azulejos) é um dos interiores mais bonitos da cidade, e aqui a entrada é permitida a todos.

Túmulos Saadianos. Necrópole real ligada sobretudo ao reinado de Ahmad al-Mansur (1578-1603), ao lado da Mesquita da Kasbah. A sala das doze colunas, com mármore e teto de madeira entalhada, costuma ter fila; chegar na abertura ajuda.

Palácio da Bahia. Construído a partir da década de 1860 pelo grão-vizir Si Musa e ampliado entre 1894 e 1900 por seu filho Ba Ahmed, tem cerca de 150 cômodos em torno de pátios e jardins. Os tetos de madeira pintada são o destaque.

Jardim Majorelle. Fora da medina, no bairro de Guéliz, é um jardim botânico de cerca de um hectare criado pelo pintor francês Jacques Majorelle a partir de 1923. O azul cobalto das construções ganhou o nome do artista. Nos anos 1980 a propriedade foi comprada por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé; hoje a vila abriga o Museu Berbere, e o Museu Yves Saint Laurent abriu ao lado em 2017. Em alta temporada a fila é longa, e comprar o ingresso antecipado no site oficial do jardim poupa tempo.

Riad na medina ou hotel em Guéliz?

O riad é a casa tradicional voltada para um pátio interno, com fachada quase sem janelas para a rua. Centenas deles foram restaurados e viraram pousadas, e dormir em um é a forma mais prática de ficar a pé da praça e dos souks. A contrapartida: carros não chegam à porta de muitos deles, então vale combinar com a hospedagem alguém para buscar você no ponto de táxi mais próximo.

Guéliz e Hivernage, a cidade nova construída no período do protetorado francês, têm hotéis maiores, avenidas largas e restaurantes de perfil mais internacional. Ficam a cerca de meia hora a pé da Jemaa el-Fnaa, ou poucos minutos de táxi.

Calor, Ramadã e o terremoto de 2023

Julho e agosto são os meses mais quentes, com tardes que passam dos 40 °C nas ondas de calor; primavera e outono são mais confortáveis para andar pela medina. Durante o Ramadã, cuja data muda a cada ano, muitos restaurantes locais fecham de dia, e a praça ganha movimento depois do pôr do sol.

Em setembro de 2023, um terremoto atingiu a região de Al Haouz, ao sul da cidade. Houve danos em partes da medina e em vilarejos do Alto Atlas, e o ksar de Aït Ben Haddou, a caminho do deserto, também sofreu rachaduras. A cidade seguiu recebendo visitantes, inclusive as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial um mês depois.

Entrada no Marrocos para brasileiros

Brasileiros não precisam de visto para turismo no Marrocos por até 90 dias. O passaporte deve ter validade mínima de seis meses a partir da chegada. Desde dezembro de 2024 a Royal Air Maroc opera voos diretos entre Guarulhos e Casablanca, com quatro frequências semanais em 2026 e a quinta anunciada para o fim do ano. De Casablanca, Marraquexe fica a cerca de três horas de trem, ou a um voo curto. Regras gerais de entrada em outros países africanos estão no nosso guia de vistos para a África.

Para onde seguir depois

Marraquexe é a base natural para três tipos de saída. A primeira é o Alto Atlas, com o Vale do Ourika a cerca de uma hora de carro. A segunda é o deserto, numa viagem de dois ou três dias pelo passo de Tizi n'Tichka até as dunas de Merzouga, detalhada no roteiro Marrocos em 10 dias e no guia do deserto do Saara. A terceira é a costa atlântica, onde fica Taghazout, a vila do surf perto de Agadir. Antes de sair da cidade, vale provar nas barracas da praça o que contamos no texto sobre o tagine e a cozinha marroquina.

Fontes