A volta clássica pelo Marrocos liga três paisagens muito diferentes em pouco mais de uma semana: a medina de Marraquexe, as dunas de Erg Chebbi, na borda do Saara, e Fez, a cidade imperial mais antiga do país. O trecho que pesa é a estrada: só de Marraquexe a Merzouga são cerca de 550 quilômetros e nove horas de direção sem paradas longas, por isso o roteiro abaixo divide essa travessia em dois dias.

Três decisões antes de reservar

Como se deslocar. Há três formatos comuns. O tour em grupo saindo de Marraquexe (três dias e duas noites até o deserto, muitas vezes terminando em Fez) é o mais barato e o mais corrido. O motorista particular custa mais, mas deixa você escolher paradas e horários. Alugar carro é viável: as estradas principais são asfaltadas, mas a descida do Atlas tem curvas fechadas e caminhões lentos.

Qual deserto. Erg Chebbi, ao lado do vilarejo de Merzouga, tem dunas que chegam a 150 metros de altura e uma faixa de cerca de 28 quilômetros de norte a sul, junto à fronteira com a Argélia. É o mais acessível e o mais estruturado. Erg Chigaga, a uns 56 quilômetros a sudoeste de M'Hamid El Ghizlane, no vale do Drâa, é o maior mar de dunas do país, mas só se chega de 4x4 por pista de terra; os acampamentos são mais isolados e o roteiro não passa por Fez com a mesma facilidade.

Sentido da volta. Começar em Marraquexe e terminar em Fez evita refazer a estrada. Quem só encontra voo de volta por Casablanca pode descer de Fez de trem.

O roteiro em uma tabela

DiaTrechoDestaque
1 a 3MarraquexeMedina, Jemaa el-Fnaa, Medersa Ben Youssef
4Marraquexe → Aït Ben Haddou → Ouarzazate ou vale do DadèsPasso de Tizi n'Tichka
5Dadès → Todra → MerzougaGargantas e chegada ao acampamento
6MerzougaDunas de Erg Chebbi, segunda noite no deserto (opcional)
7Merzouga → Midelt → Ifrane → FezVale do Ziz e Médio Atlas
8 e 9FezFes el-Bali, curtume Chouara, medersas
10Fez → voo ou tremAeroporto Fès-Saïss ou trem para Casablanca

Dias 1 a 3: Marraquexe

Três noites bastam para a medina, os palácios e um bate-volta curto ao Atlas. O que ver e onde dormir está no nosso guia de Marraquexe. Se a chegada for por Casablanca, considere dormir a primeira noite em Marraquexe e deixar a cidade costeira para o fim.

Dia 4: o Alto Atlas e Aït Ben Haddou

A estrada N9 sobe ao passo de Tizi n'Tichka. A placa no topo indica 2.260 metros, embora medições por GPS feitas em 2022 apontem algo perto de 2.205. Depois da descida, o desvio para Aït Ben Haddou leva a um ksar (vilarejo fortificado de taipa) na antiga rota das caravanas entre o Saara e Marraquexe, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1987. Poucas famílias ainda vivem dentro dele; a maioria mora na vila moderna do outro lado do rio, ligada ao ksar por uma ponte de pedestres de 2011. O lugar sofreu rachaduras no terremoto de setembro de 2023.

A poucos quilômetros fica Ouarzazate, cidade dos grandes estúdios de cinema do país, onde foram rodados filmes como "Lawrence da Arábia" e "Gladiador" e partes de "Game of Thrones". Para encurtar o dia seguinte, muitos roteiros dormem já no vale do Dadès.

Dia 5: as gargantas do Dadès e do Todra

O rio Dadès corta o Atlas em gargantas com paredes de 200 a 500 metros. Mais adiante, perto de Tinghir, o Todra estreita nos últimos 600 metros do cânion até uma passagem de cerca de 10 metros de largura, entre paredões de até 160 metros. É uma parada de uma ou duas horas, boa para esticar as pernas antes do trecho final até Merzouga, aonde se chega no fim da tarde.

Dia 6: Erg Chebbi

A ida ao acampamento costuma ser feita de dromedário ao pôr do sol, com volta ao amanhecer. Também há passeios de 4x4 pela hamada (deserto de pedra) ao redor das dunas, visitas a vilarejos vizinhos, como Khamlia, e ao lago sazonal Yasmina, que voltou a se formar em 2024 depois de chuvas fortes.

Em 2019, as autoridades locais fecharam acampamentos sem licença por problemas de lixo e uso de água. Antes de pagar, pergunte se o acampamento é licenciado, como é tratado o esgoto e se há banheiro na barraca. A melhor época para as dunas vai de outubro a abril; no verão o calor de dia é pesado e, no inverno, as noites ficam muito frias.

Uma segunda noite no deserto deixa o dia livre e quebra o cansaço da estrada. Mais sobre clima, oásis e povos do deserto está no guia do deserto do Saara.

Dia 7: subindo para Fez

De Merzouga a Fez é um dia inteiro de carro, passando por Erfoud, pelo vale do Ziz, por Midelt e pelo Médio Atlas. A parada clássica é Ifrane, criada pela administração francesa em 1929 como estação de veraneio de montanha, com chalés de telhado inclinado que renderam o apelido de "pequena Suíça". Nos arredores vive o macaco-de-gibraltar (macaco-berbere), espécie ameaçada; não alimente os animais se cruzar com eles.

Dias 8 e 9: Fez

A cidade velha, Fes el-Bali, forma com Fes Jdid a Medina de Fez, Patrimônio Mundial desde 1981. São cerca de 300 hectares de ruelas onde carros não entram. Por isso o guia local faz mais diferença aqui do que em Marraquexe, pelo menos no primeiro dia.

Três paradas resumem a cidade. A Universidade Al-Qarawiyyin, fundada segundo a tradição por Fatima al-Fihri em 859, é considerada pela UNESCO e pelo Guinness a mais antiga em funcionamento contínuo; não-muçulmanos olham o pátio da porta. O curtume Chouara, o maior da cidade, é visto de cima, das varandas das lojas de couro em volta: os tanques de pedra com tintas e soluções brancas (feitas com cal, sal e excremento de pombo para amaciar o couro) explicam o cheiro forte. E as medersas marínidas, como a Bou Inania e a Al-Attarine, mostram o mesmo trabalho de estuque e cedro da Ben Youssef de Marraquexe, dois séculos antes.

Curtumes tradicionais de Fez, no Marrocos

Foto: Wowan1978 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Dia 10: a volta

O aeroporto Fès-Saïss fica a cerca de 15 quilômetros ao sul do centro e tem voos para a Europa. Para quem embarca para o Brasil por Casablanca, o trem da ONCF liga as duas cidades; a viagem de Fez a Marraquexe, por comparação, leva de seis horas e meia a sete horas e meia, às vezes com troca em Casablanca ou Rabat. Os horários e a ligação com o trem de alta velocidade Al Boraq (Casablanca-Tânger, desde 2018) estão no site da ONCF.

Variação com Chefchaouen

Com dois dias a mais, dá para subir de Fez às montanhas do Rife até Chefchaouen, a "cidade azul", conhecida pelas casas pintadas de azul e branco e pela influência andaluza nas ruelas. O caminho natural de saída fica por Tânger e o Al Boraq até Casablanca.

Para o viajante brasileiro

Brasileiros entram no Marrocos sem visto para turismo por até 90 dias, com passaporte válido por pelo menos seis meses a partir da chegada. Desde dezembro de 2024 a Royal Air Maroc voa direto entre Guarulhos e Casablanca, com quatro frequências semanais em 2026 e uma quinta anunciada para o fim do ano. Durante o Ramadã, que muda de data a cada ano, muitos restaurantes fecham de dia e a vida se concentra depois do pôr do sol; a viagem funciona, mas pede ajuste de horários.

À mesa, o roteiro passa por tagines de cordeiro com ameixa em Marraquexe e pela pastilla de Fez, assuntos do nosso texto sobre o tagine e a cozinha marroquina. Quem tiver dias sobrando pode trocar Fez pela costa e seguir para Taghazout. Para dinheiro e cartões, veja nosso guia de dinheiro na viagem pela África.

Fontes