Em 1º de fevereiro de 1835, dia da abolição da escravidão em Maurício, uma expedição policial subiu a encosta do Le Morne Brabant. Segundo a tradição oral, os fugitivos escondidos no alto da montanha acharam que seriam recapturados e se atiraram do penhasco, sem saber que já estavam livres. A história nunca foi comprovada em documentos, mas é lembrada todo ano pelos mauricianos crioulos desde 1987, e é parte do motivo pelo qual a montanha virou Patrimônio Mundial da UNESCO.

Maurício costuma ser vendida só como destino de resort e lua de mel. A ilha, com pouco mais de 2.000 km² a leste de Madagascar, tem bem mais que isso: história de escravidão e de imigração indiana com dois sítios da UNESCO, floresta nativa com aves que só existem ali e uma cozinha crioula que mistura África, Índia, China e França.

As lagoas e por que o mar é calmo

Um recife de coral quase contínuo cerca a ilha a certa distância da praia. Ele quebra as ondas do mar aberto e forma lagoas rasas de água clara entre o recife e a areia. É por isso que a maior parte das praias de Maurício é boa para banho e snorkel, inclusive para crianças. Os pontos onde o recife se abre, chamados de passes, têm correntes fortes e são onde ficam as ondas de surfe.

Qual costa escolher

O vento alísio de sudeste, mais forte entre maio e outubro, define o caráter de cada lado da ilha.

  • Norte (Grand Baie, Trou aux Biches, Pereybère): mais seco e protegido do vento, com mar calmo, mais restaurantes e vida noturna. Bom para famílias e para quem quer sair do hotel a pé.
  • Oeste (Flic en Flac, Tamarin, Black River): a costa mais ensolarada e com os melhores pores do sol. Tamarin é a base de passeios de barco para ver golfinhos; prefira operadores que mantêm distância dos animais em vez de colocar turistas na água junto aos grupos.
  • Sudoeste (Le Morne): praia longa ao pé da montanha. Recebe o vento alísio e é o principal ponto de kitesurf e windsurf da ilha.
  • Leste (Belle Mare, Trou d'Eau Douce): praias longas e mais vazias, com vento no inverno. De Trou d'Eau Douce saem os barcos para a Île aux Cerfs.
  • Sudeste (Blue Bay, Mahébourg): perto do aeroporto, com o parque marinho de Blue Bay e uma cidade com mercado local.

Praia e lagoa em Maurício, no Oceano Índico

Foto: Dennis Sylvester Hurd / Wikimedia Commons (CC0)

Le Morne Brabant

O maciço de basalto tem 556 m de altura e fica na ponta sudoeste da ilha. Nos séculos 18 e 19, suas encostas íngremes e cavernas serviram de refúgio para pessoas escravizadas que fugiam das plantações, os chamados marrons (maroons). A UNESCO inscreveu a Paisagem Cultural de Le Morne em 2008 como símbolo da resistência à escravidão. Há uma trilha até perto do topo, feita em geral com guia, com o último trecho de escalada fácil e vista para a lagoa.

Na costa em frente a Le Morne fica a famosa "cachoeira submarina". É uma ilusão de ótica: vista do alto, a areia e os sedimentos que deslizam pela borda da plataforma submarina parecem uma queda d'água. Ela só aparece bem em voos panorâmicos de helicóptero ou hidroavião.

Blue Bay e os recifes

O Parque Marinho de Blue Bay, no sudeste, tem 353 hectares e virou área marinha protegida em 2000. Em 2008, foi reconhecido como área úmida de importância internacional pela Convenção de Ramsar. É o lugar mais fácil para snorkel a partir da praia ou de barco com fundo de vidro, com corais e peixes de recife em água rasa. Para mergulho com cilindro, os pontos mais conhecidos ficam na costa oeste e no norte, perto das ilhotas de Coin de Mire.

Black River Gorges e as aves que quase sumiram

O Parque Nacional das Gargantas do Rio Negro (Black River Gorges), criado em 1994, tem 67,5 km² e é o maior do país. Protege o que restou da floresta nativa e abriga todas as aves endêmicas da ilha, incluindo o pombo-rosa, o falcão-de-maurício e o periquito-de-maurício, espécies que chegaram a ter poucas dezenas de indivíduos e foram recuperadas por programas de conservação. Há cerca de 60 km de trilhas.

Perto do parque fica Chamarel, com a cachoeira de mesmo nome e as "terras de sete cores", dunas de terra vulcânica em tons de vermelho, roxo e amarelo.

É a mesma ilha do dodô, ave que não voava e foi extinta no século 17, poucas décadas depois da chegada dos holandeses. O esqueleto e reconstituições estão no Museu de História Natural de Port Louis.

Port Louis e a história da imigração indiana

Na capital, o Aapravasi Ghat, Patrimônio Mundial desde 2006, é o antigo depósito de imigrantes por onde passaram cerca de 450 mil trabalhadores contratados vindos da Índia entre 1849 e 1923, depois da abolição da escravidão. Os descendentes desses trabalhadores são hoje a maior parte da população, o que explica os templos hindus, o Diwali como feriado e os pratos como o dholl puri, panqueca recheada de lentilha vendida na rua.

O mercado central e o Caudan Waterfront ficam a poucos minutos a pé do Aapravasi Ghat.

Sega, a música da ilha

O sega nasceu entre as pessoas escravizadas trazidas da África continental e de Madagascar. É cantado em crioulo mauriciano, com tambor de pele (ravanne), chocalho e triângulo. O sega tradicional mauriciano foi incluído na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO em 2014. Muitos hotéis têm apresentações, mas vale procurar festas locais ou shows em Port Louis para ver fora do formato de espetáculo para turista.

Quando ir

Maurício tem clima tropical o ano todo. De maio a outubro (inverno austral) é mais seco e fresco, com vento forte no leste e no sul, ótimo para kitesurf. De novembro a abril é verão, mais quente e úmido; entre janeiro e março há risco de ciclones tropicais. Mais detalhes no guia de melhor época para viajar pela África.

Entrada para brasileiros e como chegar

  • Visto: brasileiros não precisam de visto e podem ficar até 90 dias por visita, segundo a política de vistos de Maurício. Na imigração, podem ser pedidos reserva de hospedagem confirmada, passagem de saída e comprovação de recursos.
  • Formulário: todos os viajantes precisam preencher o Mauritius All-in-One Travel Form, do Ministério da Saúde, online antes do voo ou na chegada.
  • Voos: não há voo direto do Brasil. As rotas mais comuns são via Joanesburgo, Dubai ou Paris.
  • Dirigir: a mão é inglesa (pela esquerda). O ônibus é barato e cobre a ilha, mas é lento.

Leia também o guia de vistos para a África e o de dinheiro na viagem, já que a rupia mauriciana é a moeda local.

Rodrigues e outras combinações

Rodrigues, a cerca de 560 km a leste, é uma ilha autônoma de Maurício, bem menor e com pouco turismo, acessível por voo doméstico. Quem quer outro estilo de ilha no Índico pode comparar com as Seychelles, de granito, com Nosy Be, em Madagascar, ou com o Arquipélago de Bazaruto, em Moçambique.

Fontes