Durante quase 90 anos, o recorde mundial de temperatura pertenceu a uma cidade líbia no Saara: 58 °C medidos em 1922. Em 2012, a Organização Meteorológica Mundial anulou a marca depois de concluir que a medição era falha. A história serve de aviso para quem lê sobre o deserto: muita coisa repetida sobre o Saara é exagero, e a realidade já impressiona o bastante.

Com cerca de 9,2 milhões de km², ele é o maior deserto quente do mundo e o terceiro maior no total, atrás apenas dos desertos polares da Antártida e do Ártico.

Muito além das dunas

O Saara ocupa partes da Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão e Tunísia. A paisagem muda bastante dentro dele. Há os ergs, os mares de areia que viraram o cartão-postal; as hamadas, planaltos de pedra; os regs, planícies de cascalho; os wadis, leitos de rio secos; e os chotts, lagos salgados que secam boa parte do ano.

Também há montanhas. O ponto mais alto do deserto é o Emi Koussi, um vulcão-escudo no maciço do Tibesti, no norte do Chade. Na Argélia, o planalto de Tassili n'Ajjer passa dos 2.100 metros e tem cerca de 300 arcos naturais de arenito.

Um clima de extremos, inclusive o frio

No leste do deserto, entre Líbia, Egito e Sudão, há cerca de 1 milhão de km² onde a chuva média anual é praticamente zero. Assuã e Luxor, no Egito, registram perto de 4.300 horas de sol por ano, quase 98% de todas as horas de luz possíveis. A evaporação potencial vai de 2.500 a mais de 6.000 milímetros por ano, a mais alta medida no planeta.

A amplitude térmica entre dia e noite é grande, e o frio pega muita gente de surpresa: em acampamentos no inverno, a temperatura de madrugada pode chegar perto de zero. Já nevou no Saara, em fevereiro de 1979 e em dezembro de 2016, na cidade argelina de Ain Sefra.

Caravana de camelos tuaregue no deserto do Saara

Foto: Mehdibelhaj / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Quando o Saara era verde

Por centenas de milhares de anos, a região alternou entre deserto e savana num ciclo de cerca de 20 mil anos, ligado à precessão do eixo da Terra, que desloca a área das monções do norte da África. No último período úmido, havia lagos enormes; o lago Chade é o que restou do antigo Mega-Chade. A previsão dos cientistas é que o Saara volte a ficar verde daqui a uns 15 mil anos.

A prova mais visível está em Tassili n'Ajjer, no sudeste da Argélia, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1982. O planalto, com mais de 72 mil km², reúne um dos conjuntos de arte rupestre pré-histórica mais importantes do mundo, com cenas que registram a passagem da caça para o pastoreio quando o clima começou a secar. A cidade de apoio para visitas é Djanet, na borda sudeste.

Sal, ouro e caravanas

O deserto foi rota, não barreira. As caravanas ligavam o Mediterrâneo às cidades do Sahel, como Tombuctu e Gao, trocando sal do norte por ouro do sul. Esse comércio sustentou o Império do Mali de Mansa Musa.

Parte disso continua. Em Taoudenni, no norte do Mali, a 664 quilômetros de Tombuctu, o sal ainda é cortado à mão do leito de um antigo lago e levado em placas por caminhão ou camelo. As caravanas de lá, chamadas azalai, estão entre as últimas em funcionamento no Saara. Tuaregues, tubus e mouros são alguns dos povos que conhecem o deserto há séculos.

Onde visitar o Saara hoje

PaísOndeO que tem de diferente
MarrocosErg Chebbi (Merzouga)Dunas de até 150 m, acesso por asfalto, muitos acampamentos
MarrocosErg Chigaga (M'Hamid)Maior mar de dunas do país, só de 4x4, mais isolado
EgitoDeserto Branco (Farafra)Formações de calcário branco esculpidas pelo vento, área protegida desde 2002
EgitoOásis de SiwaOásis a 560 km do Cairo, perto da Líbia, com ruínas do oráculo de Amon
TunísiaDouzA "porta do Saara", com mais de 500 mil palmeiras e saídas de camelo ou 4x4
ArgéliaDjanet e Tassili n'AjjerArte rupestre e arenito, com visto e agência local
MauritâniaChinguettiCidade de caravanas do século 13 com bibliotecas antigas, ameaçada pela areia

Para a maioria dos brasileiros, o Marrocos é a porta mais simples: não exige visto e tem a estrutura mais madura, como mostra o roteiro Marrocos em 10 dias. No Egito, o Deserto Branco e Siwa combinam bem com uma viagem ao Egito clássico.

Segurança: onde não ir

Grande parte do Saara central e do Sahel vive conflitos armados e sequestros. Em 2026, o governo britânico (FCDO) recomenda não viajar ao Mali (atualização de julho) nem ao Níger (agosto). Na Líbia, desaconselha qualquer viagem fora de Trípoli, Benghazi, Al-Bayda, Derna e Misrata. Na Argélia, a recomendação é evitar a faixa de 30 quilômetros junto às fronteiras com Líbia, Mali e Níger, além de trechos da fronteira tunisiana.

Antes de qualquer viagem ao deserto profundo, confira também os alertas do Itamaraty e nosso texto sobre segurança na África. Nas bordas turísticas do Marrocos, Egito e Tunísia, o cuidado principal é outro: escolher operadores licenciados e não sair sem guia para as dunas.

A Grande Muralha Verde

Na borda sul do deserto, a União Africana adotou em 2007 a Grande Muralha Verde, um plano para restaurar terras degradadas no Sahel. A ideia original era um cinturão de árvores de 15 quilômetros de largura e 7.775 quilômetros de extensão, de Dakar, no Senegal, a Djibuti. O projeto virou um mosaico de ações de recuperação, com meta de restaurar 100 milhões de hectares até 2030. O avanço é desigual: em 2017, a BBC apontava o Senegal como o país com melhores resultados.

Para a noite no deserto

Leve casaco e gorro mesmo no outono e na primavera, porque o calor do dia some rápido depois do pôr do sol. Beba água ao longo do dia, antes de sentir sede, e use lenço ou chapéu contra sol e areia. Quanto à época, a janela mais confortável na borda norte vai de outubro a abril; nosso guia de melhor época por região compara com o resto do continente.

Fontes