A tumba de Tutancâmon é uma das menores do Vale dos Reis, e foi justamente por isso que sobreviveu. Quando os operários de Ramsés VI abriram o túmulo vizinho, quase dois séculos depois, construíram cabanas bem em cima da entrada da KV62 e a esconderam sob entulho. Ela só foi achada em 4 de novembro de 1922, pela equipe de Howard Carter, financiada por Lord Carnarvon, com a múmia do faraó e quase todo o enxoval no lugar.

O vale, na margem oeste do Nilo em frente a Luxor, guardou os reis do Império Novo por quase 500 anos, de Tutmés I (ou talvez Amenhotep I) até Ramsés X ou XI. Faz parte da Tebas Antiga e sua Necrópole, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1979.

Por que um vale e não pirâmides

As pirâmides do Antigo Império eram alvo fácil de saqueadores. Os faraós do Império Novo passaram a cavar túmulos na rocha de um vale seco e escondido, sob o pico de el-Qurn, cujo formato lembra uma pirâmide natural. Templos funerários separados, na beira das terras cultivadas, ficavam para o culto público.

A estratégia não funcionou bem: quase todos os túmulos foram roubados ainda na Antiguidade. Só escaparam os que tiveram a localização esquecida, como a KV62 e a KV63. Hoje são conhecidos 65 túmulos e câmaras, numerados de KV1 a KV64 (o "KV" vem de Kings' Valley), do simples poço da KV54 ao gigantesco KV5, construído para os filhos de Ramsés II, com mais de 120 câmaras e ainda fechado ao público.

O ingresso em 2026

Em outubro de 2026, a tabela oficial do Ministério do Turismo e Antiguidades cobra de estrangeiros 750 libras egípcias pelo ingresso geral (estudante, 375), com o vale aberto das 6h às 17h. Guias de viagem deste ano indicam que o bilhete dá direito a três túmulos, escolhidos entre os abertos no dia. Até 18 túmulos podem receber visitantes, mas raramente todos ao mesmo tempo, porque o governo faz rodízio para restauração.

Três túmulos são vendidos à parte, segundo a mesma tabela oficial:

TúmuloFaraóIngresso extra (estrangeiro)
KV62Tutancâmon700 libras
KV17Seti I2.000 libras
KV9Ramsés V e VI220 libras

Fotografar com celular é gratuito, segundo a bilheteria oficial. O vale fica a cerca de meia hora de carro do centro de Luxor.

Máscara funerária de ouro do faraó Tutancâmon

Foto: لا روسا / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Os túmulos que valem cada libra

KV62, Tutancâmon. Pequena e com pintura só na câmara funerária, impressiona menos pela arte do que pela história. É o único lugar onde ainda está a múmia do faraó, exposta desde 2007 numa vitrine climatizada na antecâmara, para protegê-la da umidade e do mofo. Todo o tesouro, incluindo a máscara de ouro, está agora no Grande Museu Egípcio, em Gizé. Inundações e o excesso de visitas danificaram o túmulo, e uma réplica da câmara funerária foi construída perto da casa de Howard Carter para aliviar a pressão.

KV17, Seti I. O mais caro e, para muitos egiptólogos, o mais bonito. Aberto pelo italiano Giovanni Belzoni em 16 de outubro de 1817, que encontrou as pinturas com aspecto de recém-feitas e até pincéis no chão, tem mais de 137 metros e foi considerado o mais longo do vale até a redescoberta do KV5. O teto abobadado da câmara funerária mostra estrelas douradas sobre fundo azul.

KV9, Ramsés V e VI. Começado por Ramsés V e reaproveitado por seu tio, Ramsés VI. As paredes e tetos têm textos funerários completos, com o céu representado pela deusa Nut. É o bilhete extra com melhor custo-benefício.

Entre os túmulos do ingresso geral, aparecem com frequência na lista de abertos o de Ramsés III (KV11), um dos maiores do vale, conhecido como "túmulo do Harpista" pelas pinturas de músicos, e o de Horemheb (KV57), quando não está em restauração.

Além do vale: a margem oeste em uma manhã

Templo de Hatshepsut (Deir el-Bahari). Três terraços encostados no paredão de calcário, do outro lado da montanha. Os relevos do terraço do meio mostram a expedição à Terra de Punt e o nascimento divino da rainha-faraó, propaganda para justificar seu reinado.

Deir el-Medina. A vila dos artesãos que cavaram e pintaram os túmulos reais. O nome antigo era Set Maat, "Lugar da Verdade". As casas, as pequenas tumbas dos próprios operários e os registros escritos que deixaram são uma das melhores fontes sobre a vida cotidiana no Egito Antigo.

Vale das Rainhas. O túmulo de Nefertari (QV66), esposa principal de Ramsés II, foi encontrado em 1904 pelo italiano Ernesto Schiaparelli e tem algumas das pinturas mais bem conservadas do Egito. Tem ingresso próprio, vendido à parte do Vale dos Reis.

E a maldição?

Lord Carnarvon morreu em abril de 1923, de uma infecção que começou num corte feito ao se barbear sobre uma picada de mosquito. A imprensa da época tratou o caso como prova de uma "maldição do faraó", alimentada por textos como uma carta da escritora Marie Corelli publicada pouco antes. Howard Carter, o homem que mais tempo passou dentro do túmulo, viveu até 1939.

Como encaixar no roteiro

O ideal é chegar na abertura, às 6h, antes do calor e dos grupos de cruzeiro. Em uma manhã cabem o vale, com um ou dois bilhetes extras, e o templo de Hatshepsut; Deir el-Medina e o Vale das Rainhas pedem a tarde ou um segundo dia. Para ver como Luxor se encaixa na viagem com cruzeiro, veja o roteiro Egito clássico. Visto e dinheiro estão nos guias de vistos para a África e de dinheiro na viagem.

Perguntas frequentes

Preciso de guia?

Não é obrigatório. Como os corredores são estreitos e cheios, as explicações costumam ser dadas do lado de fora. Ainda assim, um egiptólogo credenciado ajuda a escolher os túmulos do dia e a ler as cenas antes de entrar.

Quanto tempo reservar?

Três a quatro horas para o vale com dois bilhetes extras. Somando Hatshepsut, Deir el-Medina e o Vale das Rainhas, o dia inteiro.

Dá para ver a múmia de Tutancâmon?

Sim. Ela continua na KV62, numa vitrine, e só é vista com o bilhete extra do túmulo.

Fontes