Foi num antigo campo de polo britânico, no centro de Acra, que Kwame Nkrumah declarou a independência de Gana em 6 de março de 1957. O lugar hoje é um parque com o mausoléu do primeiro presidente do país, e fica a poucos minutos de carro do bairro onde a cidade começou, Jamestown, ao lado de fortes do século 17. Essa mistura de memória colonial, independência e vida de rua é o que faz de Acra uma boa porta de entrada para a África Ocidental.

A cidade virou capital da Costa do Ouro britânica em 1876, substituindo Cape Coast, e manteve o posto depois da independência. Para quem vem do Brasil, há ainda um vínculo direto: em 1836, cerca de 70 africanos libertos no Brasil desembarcaram em Jamestown e ali se fixaram. Seus descendentes são conhecidos como Tabom, por causa do "tá bom" com que respondiam aos cumprimentos, e a Brazil House, na Brazil Lane, lembra essa comunidade até hoje.

Jamestown e Usshertown: onde Acra nasceu

Os dois bairros mais antigos da cidade ficam a leste da lagoa Korle, à beira do Golfo da Guiné. Cresceram em volta de dois fortes do século 17: o James Fort, britânico, e o Ussher Fort, holandês. A população é majoritariamente do povo ga, e a pesca ainda movimenta a praia, com canoas pintadas puxadas para a areia.

O farol vermelho e branco de Jamestown, uma torre de 28 metros erguida nos anos 1930 no lugar de um farol de 1871, é o ponto mais conhecido do bairro e serve de mirante sobre o porto de pesca. Os guias locais costumam incluir no passeio as academias de boxe de Bukom, área conhecida pela tradição no esporte.

Desde 2011, Jamestown recebe o Chale Wote Street Art Festival, organizado pelo coletivo ACCRA [dot] ALT, normalmente em agosto, com murais, performances e música na High Street. Algumas edições recentes se espalharam por outros bairros, como Osu.

Osu: castelo, Oxford Street e vida noturna

Osu concentra restaurantes, bares, lojas e a movimentada Oxford Street, o trecho mais procurado por quem quer jantar fora ou sair à noite. No mesmo bairro fica o Castelo de Osu, ou Christiansborg, erguido pelos dinamarqueses-noruegueses na década de 1660 e que passou por mãos suecas e portuguesas antes de voltar aos dinamarqueses.

O castelo foi sede do governo colonial a partir de 1902 e, depois, do governo ganês, até a mudança para a Jubilee House. Faz parte do conjunto "Fortes e Castelos de Gana", Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1979, mas não está aberto a visitas espontâneas.

Memorial de Nkrumah e Black Star Square

O Kwame Nkrumah Memorial Park, dedicado em 1992, ocupa cerca de cinco acres no centro da cidade. O mausoléu, revestido de mármore italiano e projetado por Don Arthur, lembra uma espada invertida, símbolo de paz na cultura akan, e guarda os restos de Nkrumah e de sua esposa, Fathia. O parque passou por reforma entre maio de 2022 e julho de 2023 e ganhou biblioteca presidencial, anfiteatro e um túnel audiovisual, além do museu com objetos pessoais do ex-presidente.

Não muito longe dali, à beira-mar, fica a Black Star Square, também chamada de Independence Square. Projetada por Theo Lawson e concluída em 1961, a tempo da visita da rainha Elizabeth II, tem arquibancadas para 30 mil pessoas, o Black Star Gate e o Arco da Independência. É ali que acontece o desfile de 6 de março, Dia da Independência. A história desse período está no nosso texto sobre as independências africanas.

Outra parada ligada ao pan-africanismo é o W.E.B. Du Bois Centre, no bairro de Cantonments, casa onde o intelectual afro-americano viveu seus últimos anos. Du Bois morreu em Acra em 1963 e está enterrado no local.

Makola: o mercado das comerciantes

Construído em 1924, o Mercado de Makola foi por décadas o principal mercado atacadista e varejista de Acra e continua dominado por mulheres comerciantes. Vende de tudo: verduras, peixe seco, tecidos estampados, sapatos, panelas, contas de vidro e, como lembra quem passa por lá, de peça de carro a caracol gigante.

O mercado tem um capítulo político pesado. Em 18 de agosto de 1979, o governo de Jerry Rawlings mandou demolir o prédio, culpando as vendedoras pela crise econômica. As comerciantes voltaram, e Makola segue como um dos lugares mais intensos da cidade. Vá de manhã, com pouco dinheiro à mão e atenção a carteira e celular nas vielas mais cheias.

O que comer em Acra

O cardápio de rua ganês é farto e barato. Os nomes que aparecem em toda parte:

  • Jollof rice: o arroz vermelho que Gana disputa com a Nigéria, servido com frango e o molho shito (leia sobre a Guerra do Jollof).
  • Waakye: arroz com feijão cozido com folhas de sorgo, que dão a cor avermelhada; costuma vir com espaguete, ovo, gari e molho de pimenta.
  • Banku e tilápia: massa fermentada de milho e mandioca com peixe grelhado e pimenta fresca.
  • Kelewele: banana-da-terra em cubos frita com gengibre e pimenta, petisco típico da noite.

Excursão a Cape Coast e Elmina

Os fortes mais visitados do litoral ganês não ficam em Acra. O Castelo de Cape Coast fica a cerca de 145 km a oeste, e o Castelo de São Jorge da Mina, em Elmina, erguido pelos portugueses em 1482, está um pouco além. Ambos integram o mesmo conjunto da UNESCO e foram pontos de embarque de africanos escravizados para as Américas, inclusive para o Brasil. As visitas guiadas passam pelas masmorras e pela "porta do não retorno", e muita gente faz o percurso num bate-volta longo de Acra ou com pernoite em Cape Coast.

Castelo de Cape Coast, em Gana, ligado à história do comércio transatlântico de escravos

Foto: Matti Blume / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O interesse por esses lugares cresceu com o "Year of Return", campanha do governo ganês de 2019 que marcou os 400 anos da chegada dos primeiros africanos escravizados à colônia inglesa da Virgínia e convidou descendentes da diáspora a visitar o país. Quem quiser comparar com outro memorial do tráfico pode ler sobre a Ilha de Gorée, no Senegal.

Entrada em Gana para brasileiros

Em outubro de 2026, brasileiros precisam de visto ou autorização eletrônica emitida antes do embarque para entrar em Gana como turistas. A isenção anunciada pelo presidente John Mahama em abril de 2026, com e-visa gratuito a partir de 25 de maio, vale apenas para cidadãos de países africanos. As informações de agências e sites de terceiros divergem sobre o formato do pedido, então a referência deve ser a Embaixada de Gana em Brasília. Veja também o nosso guia de vistos para a África.

O Certificado Internacional de Vacinação contra febre amarela é exigido de todos os viajantes a partir de 9 meses de idade, segundo o CDC. No Brasil, a vacina e o CIVP são emitidos pela rede pública e pela Anvisa; tome a dose pelo menos 10 dias antes da viagem. Gana também tem malária em todo o território, assunto do nosso texto sobre vacinas e saúde na viagem.

Não há voo direto do Brasil. O Aeroporto Internacional Kotoka recebe conexões de hubs como Adis Abeba, Casablanca, Dubai e capitais europeias.

Perguntas frequentes

Qual a melhor época para visitar Acra?

Acra tem duas estações chuvosas, a principal entre abril e junho e uma mais curta por volta de outubro. De novembro a março chove pouco, mas entre dezembro e fevereiro o harmatão, vento seco do Saara, pode deixar o céu enevoado de poeira. Para o calendário de outras regiões, veja o guia de melhor época por região.

Dá para visitar os castelos de escravos sem sair de Acra?

Em Acra há o James Fort e o Ussher Fort, em Jamestown, mas os castelos de Cape Coast e Elmina, os mais completos para visita, ficam a cerca de 145 km e exigem pelo menos um dia inteiro.

Qual a moeda de Gana?

O cedi ganês (GHS). Cartões funcionam em hotéis e restaurantes maiores, mas mercados e comida de rua são pagos em dinheiro. Há dicas gerais em dinheiro na viagem pela África.

Fontes