À meia-noite de 6 de março de 1957, num campo de polo em Acra, Kwame Nkrumah anunciou que a Costa do Ouro britânica passava a se chamar Gana e era livre "para sempre". Gana não foi o primeiro país africano independente, mas foi o primeiro da África Subsaariana a se libertar de uma potência colonial europeia, e virou modelo para os movimentos do continente. Dezoito anos depois, em 11 de novembro de 1975, Angola proclamava sua independência, e o Brasil foi o primeiro país a reconhecê-la.

Entre essas duas datas, a maior parte do mapa africano mudou de cor. Este texto organiza esse período por fases, com as datas que ajudam a entender cada uma.

Antes de 1957: quem já era independente

A Etiópia nunca foi colônia, apesar da ocupação italiana entre 1936 e 1941, e a Libéria era independente desde o século 19. O Egito obteve independência formal do Reino Unido em 1922. Na década de 1950, vieram a Líbia (1951), o Sudão (janeiro de 1956) e, no Norte da África, Marrocos e Tunísia (1956), ambos sob domínio francês.

Gana e Guiné: o exemplo e o "não"

A independência de Gana, em 1957, deu projeção a Nkrumah, defensor da unidade africana. O lugar da proclamação abriga hoje o seu mausoléu, e o desfile de 6 de março ainda acontece na Black Star Square, em Acra.

No ano seguinte, a França ofereceu às colônias um referendo sobre uma "comunidade" com Paris. A Guiné, liderada por Sékou Touré, foi a única a votar não e se tornou independente em outubro de 1958, com retirada imediata e abrupta da administração francesa.

1960, o Ano da África

Em 1960, 17 países africanos se tornaram independentes, e o número de Estados independentes no continente passou de nove para 26. Quatorze eram colônias francesas:

PaísData
Camarões1º de janeiro
Togo27 de abril
Mali e Senegal (Federação do Mali, separada em 20 de agosto)20 de junho
Madagascar26 de junho
Daomé (hoje Benim)1º de agosto
Níger3 de agosto
Alto Volta (hoje Burkina Faso)5 de agosto
Costa do Marfim7 de agosto
Chade11 de agosto
República Centro-Africana13 de agosto
Congo (Brazzaville)15 de agosto
Gabão17 de agosto
Mauritânia28 de novembro

Completam a lista o Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), em 30 de junho, a Somália, em 1º de julho, e a Nigéria, em 1º de outubro. Em 14 de dezembro de 1960, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 1514, que afirma o direito de todos os povos à autodeterminação; nenhum país votou contra, mas os Estados Unidos e outras sete potências coloniais se abstiveram.

As independências conquistadas na guerra

Nem toda descolonização foi negociada. Na Argélia, a guerra contra a França durou de 1954 a 1962 e terminou com a independência em julho de 1962. No Quênia, a revolta Mau Mau, nos anos 1950, foi reprimida com violência antes da independência de 1963, com Jomo Kenyatta.

No Congo, a independência de 1960 foi seguida quase imediatamente por secessões, intervenção estrangeira e o assassinato do primeiro-ministro Patrice Lumumba, em janeiro de 1961. Em 1963, os novos Estados criaram em Adis Abeba a Organização da Unidade Africana (OUA), que em 2002 deu lugar à União Africana.

As colônias portuguesas e a ligação com o Brasil

Portugal, sob a ditadura do Estado Novo, recusou-se a negociar. A partir de 1961, enfrentou guerras de libertação em Angola, na Guiné-Bissau e em Moçambique. O PAIGC, de Amílcar Cabral, lutava pela independência conjunta da Guiné e de Cabo Verde; Cabral foi assassinado em Conacri em janeiro de 1973, meses antes de o partido proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau, em 24 de setembro de 1973.

O desgaste das guerras ajudou a provocar a Revolução dos Cravos, em Lisboa, em 25 de abril de 1974. Com ela, as independências vieram em sequência:

  • Guiné-Bissau: reconhecida por Portugal em 10 de setembro de 1974.
  • Moçambique: 25 de junho de 1975, com Samora Machel e a Frelimo.
  • Cabo Verde: 5 de julho de 1975.
  • São Tomé e Príncipe: 12 de julho de 1975.
  • Angola: 11 de novembro de 1975, proclamada em Luanda por Agostinho Neto, do MPLA.

Memorial António Agostinho Neto, em Luanda, Angola

Foto: David Stanley from Nanaimo, Canada / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil, então governado pelo general Ernesto Geisel, foi o primeiro país a reconhecer a independência angolana, antes até dos países do bloco socialista, numa decisão que surpreendeu pelo contraste entre um regime militar anticomunista e um governo do MPLA de orientação marxista. Angola entrou em seguida numa guerra civil que só terminaria em 2002. Os cinco países formam hoje, com Brasil, Portugal, Timor-Leste e Guiné Equatorial, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Para quem viaja, essa história está presente em toda parte: em Cabo Verde, o aeroporto do Sal leva o nome de Amílcar Cabral (veja o nosso guia de Cabo Verde), e em Moçambique, avenidas de Maputo homenageiam líderes da luta pela independência.

As últimas independências

A África Austral foi a última a se libertar do domínio de minorias brancas. O Zimbábue, depois da declaração unilateral de independência da minoria branca da Rodésia em 1965 e de uma guerra civil, tornou-se independente em 1980. A Namíbia, administrada pela África do Sul, só se tornou independente em 1990. Na África do Sul, o fim do apartheid veio com as eleições de 1994; a história está no texto sobre Joanesburgo e Soweto. Depois disso, a Eritreia se separou da Etiópia em 1993, e o Sudão do Sul do Sudão em 2011.

Fronteiras herdadas

Boa parte das fronteiras africanas foi traçada por potências europeias, sobretudo depois da Conferência de Berlim (1884-1885), sem levar em conta povos e reinos existentes. Em 1964, a OUA decidiu manter as fronteiras herdadas da colonização para evitar guerras entre os novos Estados. A escolha evitou muitos conflitos territoriais, mas deixou grupos divididos entre países e problemas que reaparecem até hoje. A memória do período anterior, do tráfico atlântico, pode ser vista na Ilha de Gorée, no Senegal.

Fontes