Em 4 de setembro de 2026, no sopé do Parque Nacional dos Vulcões, em Kinigi, Ruanda deu nome a 22 filhotes de gorila-da-montanha. Foi a 21ª edição da Kwita Izina, expressão em kinyarwanda que significa "dar um nome". Com ela, o total de gorilas batizados desde que a cerimônia virou evento oficial anual, em 2005, chegou a 460, segundo o Rwanda Development Board (RDB).

A ideia vem de um costume ruandês de séculos: o recém-nascido recebe o nome diante da família e da comunidade. Aplicada aos gorilas, a tradição virou a principal vitrine de conservação do país. Ela reúne guardas-florestais, comunidades vizinhas ao parque, autoridades e convidados estrangeiros que escolhem e anunciam os nomes.

A edição de 2026 em números

  • Data e local: 4 de setembro de 2026, em Kinigi, distrito de Musanze, na entrada do Parque Nacional dos Vulcões.
  • Tema: "Conservation is Life: Sustaining the Future" (Conservação é vida: sustentando o futuro).
  • Filhotes batizados: 22, de famílias como Susa, Pablo, Musilikale, Izuba, Hirwa, Kwitonda e Umubano.
  • Total desde 2005: 460 gorilas com nome dado na cerimônia.
  • Convidado de honra: o primeiro-ministro de Ruanda, Justin Nsengiyumva, ao lado dos ex-chefes de governo de Botsuana, Etiópia e Tanzânia.
  • Show de encerramento: o nigeriano Rema se apresentou na BK Arena, em Kigali, em 5 de setembro, um dia depois da cerimônia.

Em 2025, na 20ª edição, foram 40 filhotes batizados. O número de cada ano depende dos nascimentos nas famílias habituadas do lado ruandês do maciço.

O que os nomes contam

Cada nome em kinyarwanda vem com uma explicação ligada ao filhote, à família ou à conservação. Alguns exemplos de 2026, conforme o comunicado do RDB:

NomeSignificadoFamília
Shikama"Fique firme"Susa, família que o RDB chama de histórica
Inkera"Celebração tradicional"Pablo; nasceu um dia antes do Umuganura, festa ruandesa da colheita
Rugamba"Lutador"Hirwa; a mãe veio de um grupo não habituado e foi aceita pela família
Ndongozi"Líder"Musilikale, a maior família do Parque Nacional dos Vulcões
Muhuza"Aquele que une"Kwisanga; homenagem à proteção conjunta de Ruanda, Uganda e RDC
Ndahiro"Compromisso"Musilikale; nome dado por uma guarda-florestal do Parque Nacional de Nyungwe
Nkwakuzi"Pessoas corajosas"Umubano; nascido em 15 de abril de 2026

A lista de quem dá os nomes mistura figuras conhecidas e gente do parque. Em 2026 estavam lá o cineasta britânico Alastair Fothergill, os ex-jogadores de futebol Patrice Evra e Mamadou Sakho, o atleta olímpico Mutaz Essa Barshim e a guarda-florestal Jeannette Uwimbabazi. Dar voz a guardas e moradores da região é parte do recado da cerimônia: a conservação depende de quem vive em volta do parque.

Paisagem de Musanze, perto do Parque Nacional dos Vulcões, Ruanda

Foto: Charles J. Sharp / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Por que dar nome a um gorila

O nome é também uma ferramenta de trabalho. Guardas, rastreadores e pesquisadores acompanham cada indivíduo das famílias habituadas: quem nasceu, de qual mãe, em que grupo, como está de saúde. Isso alimenta registros de longo prazo sobre uma população pequena, em que a perda ou o nascimento de um único animal faz diferença.

Esse acompanhamento vem de longe. A primatóloga americana Dian Fossey fundou o centro de pesquisa Karisoke em 24 de setembro de 1967, entre dois vulcões do maciço de Virunga. Ela foi assassinada no centro em dezembro de 1985 e está enterrada no cemitério de gorilas de Karisoke, ao lado de Digit, um dos gorilas que estudou. O livro Gorillas in the Mist (1983) e o filme de 1988 tornaram o trabalho dela conhecido no mundo todo.

Uma população que voltou a crescer

No discurso de 2026, o primeiro-ministro ruandês lembrou que no início dos anos 1980 restavam cerca de 250 gorilas-da-montanha no maciço de Virunga. Hoje, segundo o RDB, são mais de 1.060 na natureza, somando Virunga e o ecossistema de Bwindi, em Uganda, com mais de 600 só em Virunga. É o único grande primata cuja população continua crescendo.

O crescimento traz um problema novo: falta espaço. Ruanda anunciou um plano para ampliar o Parque Nacional dos Vulcões em cerca de 3.740 hectares e criar 6.620 hectares de zonas de amortecimento. Na edição de 2025, o governo falou em ampliar o parque em quase 25%. A pedra fundamental da Smart Green Village, parte do projeto de resiliência das comunidades vizinhas ao parque, foi lançada na semana da Kwita Izina de 2026, em Kinigi.

Turismo, receita e comunidades

A Kwita Izina também presta contas do modelo que financia a conservação. Segundo o RDB, os parques nacionais de Ruanda receberam 155.394 visitas em 2025 e arrecadaram US$ 40,8 milhões. Só o Parque Nacional dos Vulcões, onde se faz o trekking de gorilas, respondeu por US$ 35,8 milhões.

Dez por cento da receita dos parques vai para projetos nas comunidades do entorno. O RDB contabiliza mais de 23 bilhões de francos ruandeses (cerca de US$ 16 milhões) investidos em quase 1.300 projetos, como escolas, postos de saúde e redes de água. O permit de trekking, de US$ 1.500 por pessoa para estrangeiros, é a principal fonte desse dinheiro. O post sobre trekking de gorilas em Ruanda e Uganda compara os valores dos dois países.

Como encaixar a Kwita Izina numa viagem

As últimas edições aconteceram no começo de setembro: 2025 e 2026 tiveram a cerimônia na primeira semana do mês. A data oficial, porém, só é confirmada pelo governo algumas semanas antes. Em 2026, o RDB apresentou os planos da edição em 11 de agosto, menos de um mês antes. Quem quiser coincidir a viagem com a festa deve acompanhar os canais do Visit Rwanda e do RDB e deixar a reserva flexível.

Setembro é bastante procurado para o trekking, e a semana da cerimônia concentra convidados e imprensa em Musanze e Kinigi. Reserve permit e hospedagem com antecedência. A cerimônia é transmitida ao vivo, e as fotos oficiais ficam disponíveis no site do RDB.

Para chegar, o brasileiro voa até Kigali com conexão em cidades como Adis Abeba ou Doha. Ruanda dá visto na chegada a todas as nacionalidades, e o certificado de febre amarela é exigido de quem vem do Brasil. Os detalhes estão nos posts sobre vistos e vacinas para a África. Quem tem mais dias pode emendar um safári no Quênia ou na Tanzânia.

Fontes