Em 1871, o geólogo alemão Karl Mauch chegou às ruínas no sul do atual Zimbábue e concluiu que elas só podiam ter sido obra de estrangeiros: talvez uma cópia do palácio da rainha de Sabá, talvez do templo de Salomão. A ideia era falsa, mas serviu por décadas a um propósito político. Reconhecer que africanos haviam construído uma cidade de pedra com muralhas de 11 metros não combinava com a justificativa da colonização.
Hoje não há dúvida acadêmica sobre a origem do Grande Zimbábue. A cidade foi construída por ancestrais do povo shona e foi capital de um reino que controlou o comércio de ouro da região entre os séculos 13 e 15. As ruínas, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1986, deram nome ao país na independência, em 1980.
Uma cidade em três partes
O sítio ocupa cerca de 7,2 km² e se divide em três conjuntos, construídos em épocas diferentes:
| Conjunto | Época principal | O que é |
|---|---|---|
| Complexo da Colina | Séculos 11 a 13 | Parte mais antiga, no alto de um morro granítico, com muros que aproveitam os blocos de rocha |
| Grande Recinto | Séculos 13 a 15 | Muralha elíptica de até 11 m de altura e cerca de 250 m de extensão, com a Torre Cônica |
| Complexo do Vale | Séculos 14 a 16 | Conjunto de construções menores entre a colina e o recinto |
O Grande Recinto é a maior estrutura de pedra antiga da África ao sul do Saara. As paredes foram feitas com blocos de granito empilhados sem argamassa, uma técnica chamada de pedra seca. Dentro dele, a Torre Cônica tem cerca de 9 m de altura e 5,5 m de diâmetro, maciça e sem entrada. Sua função ainda é debatida.
As estimativas de população variam. Cálculos mais antigos falavam em 18 mil a 20 mil habitantes no auge, enquanto um estudo mais recente sugere que a cidade nunca passou de 10 mil, segundo a Wikipédia.
Ouro, contas chinesas e a costa suaíli
O Grande Zimbábue cresceu como centro de trabalho com ouro e ponto de uma rota comercial que levava ao litoral do Índico. Por volta de 1300, ultrapassou Mapungubwe, mais ao sul, como principal centro de comércio da região.
As escavações encontraram contas de vidro chinesas e persas e cerâmica chinesa dos séculos 14 e 15, como peças de celadon de Longquan e porcelana azul e branca. Esses objetos provavelmente chegaram por portos suaílis como Kilwa Kisiwani, na atual Tanzânia, que faziam a ponte entre o interior africano e o comércio do Índico. Para entender a escala do ouro africano na época, vale ler sobre Mansa Musa e o Império do Mali.
A cidade foi abandonada entre os séculos 16 e 17. Uma das explicações mais citadas combina esgotamento de recursos, como lenha e pastagem, com a mudança das rotas comerciais para o norte, onde surgiu o Império Mutapa.
Os pássaros de pedra-sabão
Foram encontradas no sítio oito esculturas de aves em pedra-sabão, cada uma no alto de uma coluna. Elas provavelmente representam a águia-bailarina (bateleur) e talvez tivessem ligação com os ancestrais da elite governante. Várias foram levadas do sítio no período colonial, inclusive para a coleção de Cecil Rhodes, na Cidade do Cabo. A maior parte voltou ao Zimbábue, mas uma continua na Cidade do Cabo.
Hoje o pássaro do Zimbábue está na bandeira e no brasão do país. O museu do sítio expõe algumas das esculturas originais.
Como a história foi negada
A origem africana das ruínas foi atacada de várias formas. Entre as décadas de 1890 e 1920, antiquários europeus saquearam o sítio, levando ouro e objetos e destruindo camadas arqueológicas que hoje fariam falta. Teorias ligando a cidade a fenícios, árabes ou ao rei Salomão circularam por décadas.
A ciência desmontou essas teorias cedo. David Randall-MacIver fez as primeiras escavações científicas em 1905 e 1906, e Gertrude Caton-Thompson concluiu em 1929 que as construções eram de origem banta. Nos anos 1950, a origem africana já era consenso. Mesmo assim, o governo da Rodésia, de minoria branca, censurou arqueólogos que diziam isso, porque a versão oficial ajudava a sustentar o regime. Para o contexto mais amplo, leia sobre as independências africanas.
Como visitar
O sítio fica perto de Masvingo, no sul do Zimbábue, a cerca de 30 km da cidade e a cerca de 290 km de Harare, segundo a SafariFind. A gestão é dos Museus e Monumentos Nacionais do Zimbábue (NMMZ). A taxa para estrangeiros aparece em guias de viagem em torno de US$15, mas não há tabela oficial atualizada publicada online, então confirme no portão.
Uma visita completa leva meio dia. A ordem mais comum é subir ao Complexo da Colina cedo, antes do calor, pela trilha mais antiga e íngreme, olhar o Grande Recinto lá de cima e depois descer para percorrê-lo por dentro. Guias credenciados ficam na entrada, e um guia ajuda muito a entender o que se vê, porque o sítio não tem muita sinalização.
Masvingo fica no caminho entre Harare e a fronteira sul-africana de Beitbridge, por isso muitos viajantes param no Grande Zimbábue numa viagem de carro entre os dois países. Quem vai às Cataratas Vitória precisa considerar que elas ficam no extremo oeste do país, longe de Masvingo. O voo via Harare costuma ser a forma mais prática de unir os dois.
Saúde e documentos
O CDC classifica todo o Zimbábue como área de transmissão de malária e recomenda remédio preventivo. O país exige a vacina contra febre amarela de quem chega de países com risco de transmissão, como o Brasil, então leve o CIVP. As regras de visto para brasileiros devem ser conferidas no Portal Consular do Itamaraty antes da viagem. Veja também vistos para a África e vacinas e saúde na viagem.
Outras cidades de pedra da região
O Grande Zimbábue foi o maior, mas não o único. Centenas de sítios menores com muros de pedra seca se espalham pelo Zimbábue, por Moçambique e por Botsuana. As Ruínas de Khami, perto de Bulawayo, também são Patrimônio Mundial e mostram a fase posterior dessa tradição. Na África do Sul, Mapungubwe, o antecessor comercial do Grande Zimbábue, pode ser visitado no Parque Nacional de Mapungubwe, na fronteira com Botsuana e Zimbábue.
Para outros sítios antigos do continente, veja o reino de Axum, na Etiópia.





